
Algumas pessoas veem o tédio em crianças como algo negativo. Afinal, muitos adultos se sentem desconfortáveis ao ouvir uma criança dizer “que tédio, não tem o que fazer”. Assim, rapidamente, tentam oferecer alguma distração. No entanto, pesquisas em psicologia do desenvolvimento e neurociência indicam que o tédio pode ter um papel importante no desenvolvimento infantil, especialmente no fortalecimento da criatividade, da autonomia e das habilidades socioemocionais.
Portanto, para compreender o papel do tédio no desenvolvimento emocional das crianças — e como famílias e educadores podem lidar com ele de forma equilibrada — o primeiro passo é entender o que é o tédio.
Como devemos interpretar o tédio em crianças?
O tédio é um estado emocional caracterizado pela sensação de falta de interesse ou engajamento com a atividade presente. Ou seja, ele surge quando o cérebro percebe que o ambiente não oferece estímulos suficientemente desafiadores ou significativos naquele momento.
Porém, do ponto de vista científico, o tédio funciona como um sinal interno de autorregulação. Sendo assim, ele indica que a mente está pronta para buscar novas experiências, ideias ou ações.
É importante reforçar que:
tédio não é ócio;
tédio não é preguiça;
- tédio não é, por si só, um sinal de depressão ou um problema de saúde mental
Assim, sentir tédio faz parte da experiência humana —também na infância — e aprender a lidar com ele é um aspecto importante do desenvolvimento. Neste sentido, para aprofundar a compreensão sobre o papel das emoções, inclusive as consideradas negativas, convidamos você a ouvir nosso audiobook sobre o tema, clicando abaixo!
O papel do tédio no desenvolvimento infantil
Durante a infância, o tédio pode funcionar como um convite à iniciativa e à autonomia. Afinal, quando não há uma atividade proposta ou um estímulo externo constante — como telas de televisão ou smartphones — a criança é incentivada a explorar possibilidades internas e o ambiente ao seu redor.
Pesquisas na área do desenvolvimento infantil mostram que momentos de menor estimulação externa estão associados ao desenvolvimento de funções importantes, como:
Planejamento;
Tomada de decisão;
Flexibilidade cognitiva;
Criatividade espontânea.
Aliás, essas habilidades estão diretamente ligadas à capacidade da criança de lidar com desafios ao longo da vida, buscando estratégias alternativas quando algo não funciona como o esperado. Essas habilidades, por sua vez, estão diretamente ligadas à capacidade da criança de lidar com desafios ao longo da vida, buscando estratégias alternativas quando algo não funciona como o esperado.
Tédio em crianças e criatividade
Estudos experimentais com adultos e crianças indicam que estados moderados de tédio podem estimular o pensamento criativo. Além disso, uma pesquisa publicada na Academy of Management Discoveries mostrou que pessoas submetidas a tarefas entediantes apresentaram maior capacidade de gerar ideias criativas posteriormente, em comparação com aquelas expostas a tarefas altamente estimulantes.
Segundo especialistas do Child Mind Institute, permitir que crianças vivenciem o tédio em um ambiente seguro pode favorecer o desenvolvimento emocional e criativo:
“O tédio não é algo que precisa ser eliminado imediatamente. Quando crianças têm a oportunidade de experimentar o tédio em segurança, elas são incentivadas a recorrer à própria imaginação, desenvolver autonomia e encontrar maneiras criativas de se envolver com o mundo ao seu redor.” – Dra Lee, Child Mind Institute.
Conheça a pesquisa “The Benefits of Boredom” do Child Mind Institute na íntegra aqui. Para acessar o conteúdo em português, basta ativar a tradução no navegador.
O tédio em crianças e o desenvolvimento das habilidades socioemocionais
Lidar com o tédio também é uma experiência importante para o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, como, por exemplo:
Tolerância à frustração;
Autorregulação emocional;
Paciência;
Consciência emocional.
Ao vivenciar o desconforto do tédio sem uma solução imediata, a criança aprende que emoções difíceis podem ser sentidas, compreendidas e atravessadas — um aprendizado essencial para proteção da saúde mental.
👉 Ouça abaixo o podcast sobre competências socioemocionais!
O que fazer diante do tédio infantil?
Uma pergunta comum entre famílias e educadores é: o que fazer diante do tédio infantil?
Como vimos até aqui, a resposta nem sempre é oferecer uma atividade para “combater” o tédio. Em muitos casos, o mais importante é não interromper imediatamente o processo que ele desencadeia.
Algumas estratégias possíveis incluem:
Validar o sentimento (“entendo que você está entediado”);
Evitar soluções automáticas;
Estimular a autonomia e permitir que a criança pense no que gostaria de fazer;
Garantir um ambiente seguro, com possibilidades de atividades simples.
Assim, o tédio pode se tornar um espaço fértil para o desenvolvimento infantil e para o estímulo da criatividade.
O que fazer para lidar com o tédio em crianças?
A decisão sobre “o que fazer para sair do tédio ” deve, sempre que possível, partir da própria criança. No entanto, os adultos têm um papel fundamental: promover um ambiente seguro e ajudar a criança a pensar em possibilidades que estimulem sua criatividade e independência.
Atualmente, uma resposta comum ao tédio infantil tem sido recorrer ao uso de celulares e telas. Embora as telas façam parte da realidade contemporânea e e tenham seu papel no desenvolvimento intelectual e social das crianças, estudos alertam que seu uso constante como solução imediata pode reduzir oportunidades de brincar livre e de exercício da imaginação.
Especialistas em desenvolvimento infantil apontam que crianças que aprendem a lidar com o tédio sem recorrer sempre às telas tendem a desenvolver:
- maior capacidade de autorregulação
- mais iniciativa
- maior engajamento criativo
Ainda assim, é fundamental considerar as diferentes realidades sociais e familiares. Ou seja, em alguns contextos, o tédio é evitado por agendas excessivamente cheias. Porém, em outros, as telas ocupam grande parte do dia. Além disso, ainda há situações em que responsabilidades domésticas ou trabalho precoce impactam o tempo livre de crianças e adolescentes.
O tédio importa!
Mais do que algo a ser evitado, o tédio pode ser compreendido como um espaço de escuta interna e desenvolvimento emocional, fundamental para o bem-estar e a saúde mental ao longo da vida. Portanto, assegure o tempo livre para que as crianças e adolescentes lidem com esse sentimento e explorem suas capacidades de criar novas situações.
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