Telas fazem mal às crianças e adolescentes?

Em 2025, o Brasil tinha 502 milhões de dispositivos digitais — entre computadores, notebooks, tablets e smartphones — em uso no país. Uma média de 2,4 equipamentos por habitante. Além disso, uma parte importante desses aparelhos está nas mãos de crianças e adolescentes, que, por sua vez, os usam para estudar, conversar, se distrair e participar da vida social. Diante desse cenário, a pergunta surge quase automaticamente: afinal, telas fazem mal às crianças e adolescentes?

A resposta não é um simples “sim” ou “não”. Isso porque ela depende do tempo de uso, dos horários, do tipo de conteúdo e do espaço que sobra para atividades essenciais, como sono, convivência, brincadeiras, movimento e silêncio.

Ao longo deste texto, vamos analisar dados, compreender como o excesso de telas afeta o corpo e a mente, além de discutir caminhos realistas para famílias, escolas e para a sociedade como um todo.

Telas fazem mal às crianças e adolescentes? O que a ciência já sabe

Para começar, vale entender o tamanho da presença das telas na vida dos mais jovens.

IndicadorSituação resumida*
Celulares no Brasil272 milhões de celulares para 213,4 milhões de habitantes (1,2 dispositivo por habitante)
Crianças brasileiras (9 a 10 anos) com acesso ao celular55%
Crianças brasileiras (13 a 14 anos) com acesso ao celular78%
Crianças usuárias de internet de 9 a 17 anos92%
Estudantes da rede pública com acesso ao celular73,7% 
Uso diário de telas por crianças de 4 a 6 anos2 horas assistindo TV ou usando o celular

*Dados consolidados a partir de TIC Kids Online Brasil, IBGE, FGV e Fundação Maria Cecília Souto Vidigal

Esses números mostram que as telas não são apenas um detalhe da rotina. Pelo contrário, elas estruturam o dia dos mais jovens — na escola, em casa, no transporte, nas horas vagas e, em alguns casos, até na madrugada.

Por isso, ao discutir se telas fazem mal às crianças e adolescentes, o ponto principal é o espaço que elas ocupam na rotina. Quando dominam o dia a dia, os riscos aumentam.

Saúde mental em alerta: o que mudou entre crianças e adolescentes?

Nos últimos anos, o aumento do sofrimento psíquico entre jovens tem chamado atenção do mundo. 

  • Entre 2013 e 2023, por exemplo, os registros de transtornos de ansiedade em crianças e adolescentes atendidos na Rede de Atenção Psicossocial do SUS cresceram de forma importante.
  • Em 2022, pela primeira vez, as taxas de atendimento por ansiedade em crianças e jovens superaram as de adultos.
  • De acordo com o Relatório Mundial da Felicidade da ONU, os jovens vêm se sentindo menos felizes e mais solitários do que em décadas anteriores, rompendo o padrão clássico de que a juventude é a fase mais feliz da vida.

Muitas análises atribuem esse cenário exclusivamente à pandemia. No entanto, essa é apenas parte da explicação. Já que vivemos em um contexto marcado por:

  • excesso de estímulos

  • pouco sono

  • menos tempo ao ar livre

  • maior pressão social nas redes

Quando combinados, esses fatores afetam diretamente o bem-estar emocional de quem está crescendo em meio às telas. Por outro lado, a redução do estigma em saúde mental tem facilitado o reconhecimento precoce dos problemas de saúde mental.

Uso excessivo de telas: impactos no corpo, no sono e nas emoções

Instituições de saúde concordam em algo essencial: sedentarismo, sono ruim e sobrecarga de estímulos são os principais caminhos pelos quais o excesso de telas afeta a saúde. Veja os efeitos mais comuns:

DimensãoO que pode acontecer quando há uso intenso e desregulado
Corpo Menos movimento, mais tempo sentado, aumento do risco de sobrepeso, dores posturais e fadiga visual.
Sono Dificuldade para dormir, noites fragmentadas e sensação constante de cansaço.
Atenção Maior dispersão, menor foco e dificuldade em tarefas longas.
Emoções Irritabilidade, explosões de raiva, baixa tolerância à frustração e maior risco de ansiedade e depressão.
Desenvolvimento Menos tempo para brincar, conversar, explorar o ambiente e construir repertório de linguagem
Relações Conflitos familiares, isolamento e exposição a agressões virtuais.

Importante: isso não acontece de forma automática. Afinal, nem toda criança que usa tela por muitas horas desenvolverá esses problemas. Contudo, quanto mais intenso, noturno e sem supervisão de uso, maiores são os riscos.

Redes sociais, comparação constante e pressão invisível

Além dos impactos físicos, existe um efeito psicológico silencioso. Nas redes sociais, por exemplo, adolescentes se comparam o tempo todo com:

  • corpos

  • conquistas

  • rotinas “perfeitas”

  • padrões irreais

Como resultado, esse processo leva muitos jovens a desenvolverem uma sensação persistente de inadequação. Além disso, pesquisas recentes associam o uso intenso de redes a um maior risco de desenvolver sintomas depressivos, especialmente quando há baixa autoestima e pouco apoio fora do mundo digital

Neste contexto, o psicólogo social Jonathan Haidt, em seu livro A Geração Ansiosa, chama atenção para uma contradição:

“Estamos superprotegendo nossos filhos na vida real e não os protegendo o bastante na internet.”

Ou seja, enquanto evitamos que  andem sozinhos até a esquina, em contrapartida, permitimos que circulem sem limites por espaços virtuais repletos de conteúdos agressivos, sexualizados ou inadequados.

O olhar de Rodrigo Bressan: limites também protegem adultos

Se até adultos se veem engolidos pelas telas, então o que dizer de crianças e adolescentes? Nesse sentido, o psiquiatra Rodrigo Bressan, presidente do Instituto Ame Sua Mente, resume bem esse dilema:

“Com WhatsApp e outras redes, o trabalho invade a nossa vida familiar e o nosso lazer. Precisamos aprender a dar limites, sem perder a produtividade. Se não conseguimos descansar, acabamos tendo a capacidade produtiva reduzida e os riscos de desenvolver problemas de saúde mental aumentados” 

Foto de Rodrigo Bressan. Ele veste camisa azul e usa óculos marrom. Ele fala sobre: TELAS: elas fazem mal às crianças e adolescentes?

Assim, quando adultos vivem conectados o tempo todo, o recado indireto para crianças e adolescentes é claro: “É normal estar sempre disponível e sempre on-line passa a parecer normal”.

Em outro trecho, Bressan ainda chama atenção para o efeito constante das notificações. “Qualquer tremor do celular já faz a pessoa perder o foco.”, diz o psiquiatra.

Telas fazem mal às crianças e adolescentes quando invadem a escola?

Diante de tudo isso, muitos países passaram a restringir o uso de celulares por crianças e adolescentes no ambiente escolar.

Ao mesmo tempo, movimentos da sociedade civil, como o Movimento Desconecta, defendem:

  • adiar a entrega do primeiro smartphone para depois dos 14 anos;
  • liberar redes sociais apenas após os 16;
  • criar acordos coletivos entre famílias.

Porém, essas iniciativas não buscam excluir a tecnologia. Pelo contrário, elas se concentram, sobretudo, em proteger o desenvolvimento emocional, permitindo que crianças e jovens amadureçam antes da pressão constante do ambiente digital.

Leia também:

Violência virtual: impacto do cyberbullying na saúde mental de adolescentes

Quando telas fazem mais mal do que bem: sinais de alerta

Nem todo uso intenso de telas indica um problema grave. No entanto, certos sinais mostram quando o uso passa a causar prejuízos. Observe especialmente quando:

  • o sono piora por causa do celular à noite (a criança ou o adolescente “vira a noite” no celular ou no videogame);
  • tarefas escolares deixam de ser feitas;
  • atividades presenciais (como brincar, esportes, encontrar amigos) são abandonadas;
  • interrupções do uso geram explosões de raiva desproporcionais;
  • surgem episódios de cyberbullying e exposição a riscos perigosos.

Se vários desses sinais aparecem juntos por semanas, é hora de acender o alerta. Muitas vezes, o uso excessivo de telas é causa e consequência do sofrimento emocional.

E o que as famílias podem fazer na prática?

Na prática, ninguém tem uma rotina perfeita. Mesmo assim, algumas estratégias ajudam muito a reduzir riscos, entre elas:

  • combinar regras antes — por exemplo, definir o tempo de uso, avisar quando estiver chegando ao fim e reforçar o combinado — ajuda a reduzir conflitos.
  • explicar os motivos dos limites, relacionando sono, humor, aprendizado e saúde mental;
  • criar horários sem tela, como durante as refeições, na primeira meia hora após acordar ou na última hora antes de dormir;
  • tirar celulares do quarto à noite, principalmente na infância e pré-adolescência;
  • oferecer alternativas de lazer – jogos de tabuleiro, leitura, brincadeiras, esportes, etc.

Vale ressaltar que mais do que falar sobre limites, é o exemplo cotidiano — desconectar, estar presente e respeitar pausas digitais — que realmente educa.

O papel da escola: educar também para o uso de telas

A escola não precisa se limitar a proibir o uso de celulares. Pelo contrário, ela pode contribuir de forma significativa quando, por exemplo, discute com os estudantes como funcionam os algoritmos, as notificações e os conteúdos recomendados.

Além disso, ela ajuda quando aborda temas como privacidade, respeito, exposição, discurso de ódio e desinformação; bem como quando promove atividades que valorizam o encontro presencial, o brincar, o esporte, a arte e a conversa olho no olho. Por fim, ela também contribui quando orienta as famílias sobre o que tem observado em relação ao uso de telas e à saúde mental dos alunos.

Nesse contexto, quando escola e família se posicionam de maneira coerente, os jovens percebem que os limites não são caprichos isolados, mas, sim, parte de um cuidado compartilhado.

Quando procurar ajuda profissional?

Em muitos casos, reorganizar o uso de telas e ajustar a rotina já traz bons resultados. Porém, é fundamental buscar avaliação em saúde mental quando, por exemplo:

  • há tristeza intensa ou irritabilidade constante, que não melhora ao longo do tempo;

  • aparecem pensamentos de morte, autolesão ou falas como “minha vida não vale a pena”;

  • do mesmo modo, o desempenho escolar cai de maneira significativa, junto com o isolamento social;

  • por fim, o uso de telas se torna praticamente a única fonte de prazer ou alívio.

Nessas situações, psicólogos e psiquiatras podem ajudar não apenas a identificar possíveis transtornos associados — como depressão, ansiedade e TDAH —, mas também a orientar a família e, em especial, a construir estratégias para reduzir danos e fortalecer outras fontes de bem-estar.

Afinal, telas fazem mal às crianças e adolescentes?

Depois de tudo isso, talvez fique mais fácil responder: telas fazem mal às crianças e adolescentes quando:

  • tomam o lugar do sono, do brincar e da convivência;

  • além disso, entram em horários em que o cérebro precisaria descansar;

  • também funcionam como a única forma de lidar com emoções difíceis;

  • expõem os jovens a conteúdos violentos, sexualizados ou humilhantes, sem proteção;

  • e impedem que eles experimentem o mundo para além do brilho da tela.

Por outro lado, quando há equilíbrio, supervisão, diálogo e espaço para muitas outras experiências, as telas deixam de ser vilãs  e passam a ser apenas uma ferramenta entre tantas.

Em suma, o desafio não é expulsar a tecnologia de casa ou da escola, mas aprender – juntos – a colocá-la no lugar certo. Afinal, cada vez que ajudamos uma criança ou um adolescente a dormir melhor, brincar mais, se mover, conversar, se entediar um pouco e se conhecer para além das redes, estamos, na prática, protegendo sua saúde mental.

Para terminar, é justamente aí que a pergunta “telas fazem mal às crianças e adolescentes?” se transforma em outra ainda mais importante: como podemos cuidar melhor de quem está crescendo em um mundo cheio de telas?

 

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As telas e a hiperconexão – TV BRASIL

Tédio em crianças: por que ele importa no desenvolvimento

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