Instituições como Insper e Fundação Getulio Vargas passaram a restringir o uso de celulares durante as aulas. A medida busca reduzir distrações e melhorar a atenção dos estudantes. Em reportagem do Estadão, o psiquiatra e especialista do Instituto Ame Sua Mente, Gustavo Estanislau, analisa os impactos do celular no ambiente de aprendizagem. Segundo ele, a proibição do celular na faculdade também levanta uma reflexão sobre o papel da tecnologia na educação e, ao mesmo tempo, sobre os desafios de manter o foco em um mundo cada vez mais conectado.
De acordo com o psiquiatra, o principal desafio está nos mecanismos de funcionamento das redes sociais. Essas plataformas ativam disparos de dopamina — neurotransmissor ligado à sensação de prazer. Isso ocorre porque seus algoritmos entregam conteúdos alinhados aos interesses do usuário. Além disso, notificações e curtidas reforçam esse ciclo de recompensa, o que aumenta a vontade de continuar consumindo esses conteúdos.
Como resultado, essa dinâmica favorece a distração. Além disso, pode estimular comportamentos de dependência, criando a sensação constante de que algo importante pode estar acontecendo no celular. Assim, até a simples presença do aparelho em sala de aula já pode prejudicar a atenção.
Proibição de celular e autorregulação
O especialista explica que a proibição do celular durante as aulas pode ser uma oportunidade para os estudantes se afastarem temporariamente do aparelho. Esse afastamento também permite que esses jovens percebam os benefícios da desconexão, especialmente em atividades que exigem concentração.
Isso é especialmente relevante porque, no cenário atual, a autorregulação se tornou um desafio. Isso ocorre já que muitas tecnologias digitais são projetadas para capturar e manter a atenção dos usuários. Nesse sentido, a restrição pode funcionar como um apoio externo para reduzir distrações e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento de hábitos mais saudáveis no uso da tecnologia.
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Debate pode ampliar a reflexão sobre o uso da tecnologia
Outro ponto destacado por Gustavo é que a proibição do uso de celulares nas faculdades pode ampliar a reflexão sobre o ambiente de aprendizagem. Embora a fragmentação da atenção seja um fenômeno que afeta toda a sociedade, seus efeitos podem ser ainda mais intensos durante a juventude, fase de desenvolvimento do cérebro.
Muitas faculdades recebem estudantes ainda adolescentes, e mesmo os maiores de idade seguem em desenvolvimento do ponto de vista neurocientífico. Em outras palavras, o cérebro continua em maturação até cerca de 24 anos, especialmente a região do córtex pré-frontal —responsável por funções como controle de impulsos, senso crítico e planejamento de longo prazo.

Por isso, esse debate convida a repensar como os espaços educacionais estão lidando com distrações e estímulos digitais. Vale lembrar nesta reflexão que escolas e faculdades também preparam os estudantes para o mundo do trabalho, onde o uso do celular costuma ser mais limitado.
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Publicada em 04 de fevereiro de 2026.







