O debate sobre o uso excessivo de telas por crianças e adolescentes ganhou um novo conceito: a desigualdade cognitiva. Mais do que discutir o tempo de exposição aos dispositivos, especialistas alertam para os impactos que essas experiências podem causar no desenvolvimento cerebral, emocional e social das novas gerações.

Durante participação no podcast Jabuticaba Sem Caroço, a psicóloga e especialista do Instituto Ame Sua Mente, Ana Carolina D’Agostini, explica que o excesso de telas pode interferir diretamente em habilidades fundamentais da infância e adolescência, como atenção, linguagem, autorregulação emocional e interação social.

Impactos emocionais

De acordo com a especialista, já é possível perceber diferenças cognitivas importantes entre crianças mais expostas às telas e aquelas que mantêm uma rotina mais equilibrada. Esses impactos aparecem principalmente no ambiente escolar e nas relações sociais.

“A gente observa impactos cognitivos, emocionais e sociais nessas crianças e adolescentes. Há mais sinais de ansiedade, irritabilidade, impulsividade, dificuldade de autorregulação emocional e menos habilidades sociais, justamente porque muitas dessas trocas acontecem nas telas e não na vida real.”

Ana Carolina também destaca que o excesso de recompensas imediatas no ambiente digital pode levar crianças e adolescentes a desenvolverem menor tolerância à frustração. Além disso, o excesso de telas pode aumentar comportamentos impulsivos e prejudicar o sono.

Outro ponto importante envolve a dificuldade de concentração. Segundo a especialista, muitas crianças apresentam mais distração e menor capacidade de manter a atenção por longos períodos. Como resultado, isso interfere diretamente nas oportunidades de aprendizagem e no desenvolvimento emocional.

O excesso de estímulos digitais ainda pode afetar a forma como crianças e adolescentes lidam com emoções e relações sociais. Isso acontece porque grande parte das interações passa a ocorrer no ambiente virtual, e não nas experiências presenciais do cotidiano.

Como evitar a desigualdade cognitiva

Ao longo da entrevista, Ana Carolina reforça a importância de evitar discursos extremistas sobre tecnologia. Para ela, o principal problema vai além das telas e envolve, principalmente, a falta de mediação familiar e escolar.

A infância e adolescência são fases de intenso desenvolvimento cerebral. Por isso, toda experiência vivida nesse período influencia processos cognitivos, emocionais e comportamentais. Ou seja, os estímulos recebidos impactam a forma como crianças e adolescentes aprendem, se relacionam e lidam com as emoções.

Nesse contexto, surge o conceito de desigualdade cognitiva. Isso porque crianças e adolescentes expostos a diferentes estímulos e níveis de acompanhamento, desenvolvem competências emocionais, sociais e cognitivas de maneiras distintas.

Por isso, a especialista defende mais equilíbrio, acompanhamento familiar e mediação consciente do uso das telas. O objetivo não é demonizar a tecnologia, mas compreender como ela pode impactar o desenvolvimento humano quando utilizada sem limites ou orientação.

Ouça o episódio completo:

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