Como enfrentar o TOD na escola: guia para educadores

Conviver com uma criança ou adolescente com TOD (Transtorno Opositivo Desafiador) na escola pode ser muito cansativo. As discussões se repetem, os combinados parecem não funcionar e, muitas vezes, o professor sente que já tentou “de tudo”. Ainda assim, é justamente na escola que esse estudante passa boa parte do dia. Por isso, é ali que surgem oportunidades reais de cuidado e apoio.

Quando entendemos melhor o TOD e organizamos o ambiente escolar, o cenário muda. Por isso, neste guia, vamos conversar sobre como enfrentar o TOD na escola com informação, limites firmes e, especialmente, parceria entre educadores, família e rede de saúde.

Além disso, este material apresenta estratégias práticas, linguagem acessível e conteúdos para aprofundamento, sempre alinhados às recomendações de instituições de referência e do Instituto Ame Sua Mente.

O que é TOD e por que a escola sente tanto impacto

O TOD, conhecido também como Transtorno Opositivo Desafiador, é um quadro marcado por um padrão persistente de irritabilidade, comportamento desafiador e atitudes de oposição a figuras de autoridade, como pais, responsáveis e professores. Nesse sentido, a Associação Americana de Psiquiatria (psychiatry.org) descreve sintomas organizados em três grupos: 

  • humor irritado,
  • comportamento argumentativo ou desafiador,
  • atitude vingativa.

Isso significa que o estudante com TOD discute com frequência, questiona regras, reage com raiva a frustrações e, muitas vezes, parece “comprar briga” sempre que se sente contrariado.  Ou seja, não é má vontade. Tampouco é desrespeito proposital. Pelo contrário, trata-se de um transtorno influenciado por fatores biológicos, emocionais e ambientais.

Segundo estudos internacionais, o TOD está presente em cerca de 3% a 5% da população infantil e adolescente, com variações conforme o método de pesquisa – CNIB. Consequentemente, é provável que muitas redes de ensino tenham ao menos uma criança ou jovem com esse diagnóstico.

Para aprofundar a compreensão sobre o transtorno, vale a leitura do artigo do próprio Instituto “TOD: entenda como ele afeta crianças e adolescentes”. (Ame Sua Mente)

Por que o TOD aparece tanto no ambiente escolar?

A  escola se torna um dos espaços em que o TOD mais se manifesta. Isso ocorre porque o espaço reúne vários elementos que desafiam exatamente as dificuldades centrais do transtorno:

  • muitas regras,
  • adultos em papéis de autoridade,
  • situações constantes de frustração, espera e negociação

Assim, não surpreende que os sintomas causem grande impacto na escola, pois geram conflitos, aumentam o desgaste emocional e prejudicam a aprendizagem.

Sinais de TOD no cotidiano escolar

É importante lembrar que nem toda criança desafiadora tem TOD. Muitas podem estar vivendo lutos, mudanças familiares, bullying ou outras situações que também influenciam o comportamento. Mesmo assim, alguns sinais chamam atenção quando aparecem com frequência, intensidade e em diferentes contextos.

Na prática, na sala de aula, é comum que a criança ou o adolescente com TOD:

  • Discuta repetidamente com professores e colegas;
  • Recuse ordens simples, como guardar o material ou mudar de lugar;
  • Provoque intencionalmente, com comentários irônicos ou debochados
  • Culpe outras pessoas por suas atitudes;
  • Apresente crises de raiva e, às vezes, comportamento vingativo.

A American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP) reforça que o diagnóstico de TOD exige esse padrão de comportamento por pelo menos seis meses, além disso, deve haver prejuízos claros nas relações e na rotina. 

Porém, nem sempre é fácil diferenciar atitudes típicas da idade de um quadro clínico. Neste cenário, a observação organizada é essencial. Recursos como, por exemplo, o centro de informações da AACAP e os materiais do Instituto Ame Sua Mente podem servir como apoio para educadores.

A tabela abaixo resume situações comuns na escola e formas como o TOD pode se manifestar.

Situação na escolaComo o comportamento pode aparecerRisco de interpretação equivocada
Pedido simples do professorO estudante ignora ou faz o contrário de propósito“Ele faz isso só para me provocar”
Mudança inesperada na rotinaIrritação, choro ou recusa total em participar“É preguiça”, “não quer nada com nada”  ou “é birra”
Correção em públicoAumento da oposição e da discussão“Não aceita ser contrariado”
Aplicação de regra geral para toda a turmaQuestionamentos insistentes sobre “injustiça”“Só quer aparecer”

Quando traduzimos essas cenas em descrições objetivas, fica mais fácil entender que a criança está em sofrimento – e que a escola pode fazer diferença.

TOD na escola: Impactos para o estudante, a turma e a equipe

Para o estudante com TOD

Quando o TOD não é reconhecido, a criança ou o jovem costuma ser visto como “problemático”. Assim, ele recebe broncas constantes e passa a acreditar que nada adianta. Resultado: o ciclo de oposição se fortalece.

Além disso, pesquisas mostram que crianças e adolescentes com TOD têm maior risco de dificuldades acadêmicas, conflitos com familiares ou colegas e até uso de substâncias. Da mesma forma, eles tem maior risco de desenvolver outros transtornos de saúde mental ao longo da vida, como, por exemplo, depressão ou ansiedade.

Para a turma

O clima de sala também muda. Frequentemente, alguns colegas, com medo das explosões se afastam, enquanto outros podem imitar o comportamento desafiador ou reclamar que o professor dedica “atenção demais” a quem cria problemas. Sem apoio, a turma inteira pode se sentir injustiçada e desmotivada.

Entretanto, quando a escola organiza, as estratégias de manejo do TOD costumam beneficiar todos. Nestes casos, regras ficam mais claras, a rotina se torna mais previsível e abre-se espaço para trabalhar habilidades socioemocionais, como empatia e resolução de conflitos.

Para professores e equipe escolar

Enfrentar o TOD na escola sem apoio institucional pode levar o professor ao limite, dado que ele sente que vive “pisando em ovos”. Inclusive, o Instituto Ame Sua Mente já mostrou, em pesquisas com educadores, como a sobrecarga e os conflitos constantes impactam a saúde mental da categoria, como detalhado no artigo “Saúde mental dos professores: uma questão a ser enfrentada” (Ame Sua Mente). Por isso, o manejo do TOD não pode ser responsabilidade individual, e sim um compromisso de toda a comunidade escolar.

Princípios para enfrentar o TOD na escola

Antes de pensar em técnicas específicas, alguns princípios ajudam a orientar a postura da escola. Dessa forma, educadores conseguem adotar práticas mais consistentes e evitar desgastes desnecessários.

  • Reconhecer que é um transtorno, não “falta de limites”
    A literatura científica descreve o TOD como um transtorno comportamental que surge da interação entre fatores genéticos, emocionais e ambientais. (PubMed). Isso não exclui a importância de limites, mas lembre que essa criança precisa de apoio para aprender outras formas de reagir, e não apenas receber punições.
  • Separar a pessoa do comportamento
    Frases como “você é impossível” ferem a identidade do estudante e fecham portas para mudança. Em vez disso, é mais útil descrever o que aconteceu (“hoje você gritou com o colega e jogou o caderno”), apresentando outras maneiras de reagir. Assim, a escola reforça a mensagem de que o comportamento pode mudar, mesmo que o transtorno exista.
  • Evitar disputas de poder
    Disputas diretas costumam aumentar a oposição. Por isso, sempre que possível, transforme ordens em escolhas limitadas: “você prefere terminar esta atividade na carteira da frente ou naquela perto da janela?”. Dessa forma, o adulto mantém o limite, mas diminui a sensação de imposição.
  • Atuar em rede
    A AACAP destaca que intervenções mais efetivas para TOD combinam estratégias em casa, na escola e, quando necessário, psicoterapia e orientação familiar. Assim, ninguém fica sobrecarregado.

Estratégias práticas em sala de aula

Com os princípios em mente, agora vamos para as ações concretas para o cotidiano escolar. Importante destacar que muitas delas podem ser aplicadas em turmas inteiras, e não apenas para o estudante com TOD.

1. Tornar a rotina mais previsível

Crianças e adolescentes com TOD costumam reagir mal a mudanças inesperadas. Por isso, rotinas visíveis  – com sequência de aulas, horários de intervalo e avisos de provas – reduzem surpresas. Quando for necessário alterar a ordem das atividades, o professor pode avisar com antecedência, explicando o motivo e por quanto tempo essa mudança deve durar. Essa comunicação simples já pode evitar algumas crises.

2. Construir combinados com a turma

Regras genéricas, como “se comportar bem”, abrem espaço para interpretações diferentes. Por outro lado, acordos claros, positivos e concretos geram corresponsabilidade. Por exemplo, a turma pode discutir o que significa “respeitar o colega” em situações concretas: ouvir sem interromper, não mexer nos materiais dos outros, esperar a vez para falar. Depois disso, esses combinados podem ser registrados em um cartaz assinado por todos, incluindo a criança ou adolescente com TOD. Assim, os acordos passam a ser algo “nosso”, e não apenas “imposição do professor”.

3. Ajustar a comunicação

A forma como o adulto fala pode intensificar ou amenizar a oposição. Por isso, frases curtas, tom calmo e perguntas orientadas funcionam melhor que repreensões amplas.

  • Em vez de dizer “você nunca presta atenção”, o professor pode dizer:
    “Percebi que hoje está difícil se concentrar; o que te ajudaria a voltar para a atividade?”

  • Da mesma forma, em vez de afirmar “se não fizer, fica sem recreio”, é possível propor:
    “Podemos combinar de terminar agora para ir tranquilo ao recreio, ou usar parte do recreio para concluir. Qual opção você prefere?”

Essas mudanças não resolvem tudo. Ainda assim, reduzem a sensação de ataque e dão ao estudante uma percepção maior de controle — sem retirar a autoridade do adulto.

4. Investir em reforço positivo

O estudante com TOD costuma aparecer apenas pelo comportamento negativo. Uma forma de quebrar esse ciclo é reconhecer em voz alta para avanços concretos  – como respeitar combinados, cooperar com o grupo ou conseguir se acalmar antes de uma explosão.

Elogios específicos (“gostei de como você esperou sua vez para falar”) funcionam melhor do que elogios genéricos (“boa, parabéns”). Além disso,  algumas turmas se beneficiam de pequenos sistemas de pontos ou fichas vinculados a comportamentos claros. Essa abordagem, amplamente  utilizadas em intervenções comportamentais em todo o mundo,  aparece nas diretrizes clínicas para TOD.

5. Criar um espaço de regulação emocional

Em vez de usar a retirada da sala apenas como punição, a escola pode construir, junto com o estudante, um plano para momentos em que ele estiver “quase explodindo”. Por exemplo, é possível criar um canto de calma dentro da própria sala.

Já em crises mais intensas, outro espaço da escola — acompanhado por um adulto de referência — pode funcionar como local de respiro. Desta forma, o estudante entende que pode pedir ajuda antes que a situação saia do controle.

6. Mediação de crises com respeito e segurança

Mesmo com planejamento, crises vão acontecer. Nesses momentos, a prioridade é garantir a segurança de todos.

Expor o estudante diante da turma, gritando ou fazendo comentários sarcásticos, tende a aumentar a sensação de vergonha e revolta. Em vez disso, sempre que possível, reduza a plateia, use voz baixa e oriente a respiração. 

Utilize frases como:

  • “Eu vejo que você está muito bravo.”
  • “Vamos respirar juntos.”
  • “Quando estiver pronto, conversamos melhor.”

Depois, retomar o ocorrido com objetividade ajuda o estudante a reconstruir estratégias.

O Instituto Ame Sua Mente oferece materiais específicos sobre manejo de situações de crise e encaminhamento, como o “Protocolo de Encaminhamento”, que pode apoiar escolas na comunicação com serviços de saúde.

Dados e gráficos que ajudam em formações 

Em encontros pedagógicos ou formações internas, é muito útil traduzir o tema em números. Nesse contexto, pesquisas sintetizadas por revisões internacionais indicam que a prevalência de TOD em amostras comunitárias, costuma variar entre 2% e 16%, com a maioria das estimativas concentrada em torno de 3%.

Esse dado, por sua vez, pode virar um gráfico simples de barras, comparando:

Também é possível criar gráficos que mostrem como o TOD se relaciona a outros problemas ao longo da vida —  como conflitos familiares, dificuldades acadêmicas ou maior risco de transtornos de humor — a partir de estudos longitudinais. (PubMed). Dessa forma, essas visualizações facilitam a visualização e ajudam a sensibilizar a equipe.

Parceria com a família: essencial para enfrentar o TOD na escola

Nenhuma estratégia escolar será completa sem diálogo com a família. Por isso, a comunicação precisa ser contínua, acionando os responsáveis tanto em momentos de crise quanto para registrar pequenos avanços. Deste modo, a escola evita conversas restritas aos problemas e constrói uma relação de confiança.

Durante a conversa, o ideal é descrever comportamentos observáveis (“temos percebido que seu filho tem reagido com muita raiva quando precisa mudar de atividade”) e explicar a preocupação com o bem-estar dele e da turma. Além disso, falar sobre o TOD como um transtorno que pode ser cuidado — e não como culpa exclusiva da família — costuma reduzir resistências.

Nessa etapa, é possível indicar conteúdos acessíveis, como o próprio artigo do Instituto sobre TOD já citado e outros textos do blog que abordam ansiedade, depressão, uso de drogas e temas que frequentemente aparecem junto ao TOD.

Quando a família demonstra interesse, a escola pode orientá-la a procurar serviços de saúde mental. Para isso, vale indicar, por exemplo, a aba “Precisa de ajuda em saúde mental?”, que reúne informações sobre a rede de serviços psicossociais no Brasil. 

O papel da gestão e da equipe pedagógica

Para que o professor não fique sozinho, a gestão precisa assumir o tema como prioridade. Nesse sentido, inclui reservar tempo de planejamento para discutir casos, organizar protocolos internos claros e investir em formação continuada sobre saúde mental na escola.

Além disso, deve apoiar o bem-estar dos educadores. Textos como “Saúde mental dos professores: uma questão a ser enfrentada” e “Entendendo a saúde mental” podem servir como leitura-base em encontros pedagógicos. Assim, a equipe ganha espaço para falar sobre o próprio bem-estar e sobre a necessidade de apoio institucional. (Ame Sua Mente)

Quando buscar ajuda especializada

De forma geral, vale considerar encaminhar a criança ou o adolescente para avaliação especializada quando:

  • Os comportamentos de oposição persistem por meses, com pouca variação;
  • Aparecem em diferentes contextos (escola, casa, outros ambientes);
  • Causam prejuízos claros e importantes para a aprendizagem, para as relações e para a rotina.

Nesses casos, a escola pode orientar a família a buscar serviços de saúde mental, reforçando que diagnóstico não é rótulo, e sim uma chave para acesso a direitos e tratamentos. Por exemplo, guias como o “Facts for Families” da AACAP oferecem orientações práticas para famílias que estão começando essa busca. (aacap.org)

Ainda é importante lembrar que, em crises graves, o encaminhamento deve seguir protocolos de urgência, descritos tanto em políticas públicas quanto nos materiais do próprio Instituto, como o já citado espaço “Precisa de ajuda em saúde mental?”. (Ame Sua Mente)

TOD na escola: um caminho coletivo

Responder à pergunta sobre como enfrentar o TOD na escola não envolve uma regra única, nem uma solução rápida. Ao contrário, trata-se de um processo de construção coletiva, no qual a escola:

  • reconhece, antes de tudo, o TOD como uma doença, e não como “birra”;
  • ajusta  regras, rotinas e linguagem para reduzir disputas de poder;
  • investe em reforço positivo e em espaços de regulação emocional;
  • fortalece, da mesma forma, a parceria com a família e com a rede de saúde;
  • e cuida da saúde mental de professores e funcionários.

Em síntese, quando esses movimentos começam a acontecer, a criança ou adolescente com TOD deixa de ser apenas “o problema da sala” e passa a ser visto como alguém que merece apoio para desenvolver outras formas de se relacionar. Por consequência, a turma ganha em segurança e convivência, enquanto os educadores podem exercer seu trabalho com mais sentido e menos solidão.

No fim das contas, enfrentar o TOD na escola é também uma forma de construir ambientes educativos mais humanos, nos quais ninguém é reduzido ao seu diagnóstico — e nos quais, ainda, aprender a cuidar da mente faz parte do currículo de todos.

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