Romantizar a maternidade adoece

Dia das Mães costuma vir com flores, frases prontas e imagens de “mãe que dá conta de tudo”. No entanto, quando romantizamos a maternidade, acabamos reforçando uma ideia perigosa: a de que o amor materno precisa ser infinito, paciente e silencioso — mesmo quando a mulher está exausta. Em outras palavras, cria-se a expectativa de que o cuidado deve existir sem limites, sem ambivalência e sem espaço para pedir ajuda. Como resultado, essa idealização pode adoecer e, consequentemente, aumentar a culpa materna, aprofundar a solidão e até adiar o pedido de apoio.

Romantizar a maternidade: o que isso significa, na prática

Romantizar a maternidade é tratá-la como se fosse um estado permanente de plenitude. Na prática, isso significa reforçar a ideia de que uma mãe de verdade precisa:

  • sentir gratidão o tempo inteiro;

  • dar conta de tudo sem reclamar;

  • colocar as próprias necessidades por último;

  • viver o cansaço como algo normal;

  • aceitar a sobrecarga como destino.

Porém, a maternidade real inclui ambivalência. Ou seja, é possível amar um filho e, ao mesmo tempo, estar esgotada. Também é possível sentir alegria e, ainda assim, sentir medo. Da mesma forma, muitas mães sentem gratidão, mas precisam de descanso. Entretanto, quando a cultura não permite essa complexidade, muitas mulheres aprendem a esconder o que sentem. Desse modo, a vergonha cresce e, consequentemente, pedir ajuda passa a parecer uma prova de fracasso.

Maternidade: por que a culpa aparece tão rápido

A culpa materna raramente surge do nada. Pelo contrário, ela costuma nascer de três fontes principais:

Expectativas impossíveis
A mãe precisa ser uma cuidadora perfeita, profissional excelente, parceira disponível e, ainda manter a aparência, o humor e a disposição. Nesse cenário, qualquer limite pode ser interpretado como fracasso.

Comparação constante
As redes sociais mostram apenas recortes da vida e, em geral, destacam momentos positivos. Como resultado, muitas mães passam a se comparar com um padrão que, na prática, não existe.

Falta de apoio concreto
Quando não existe uma rede de apoio, muitas mulheres acabam assumindo tudo sozinhas. Como consequência, surge a sensação constante de estar devendo.

Esse ciclo alimenta um tipo de sofrimento silencioso: a mãe está cansada, porém não se permite descansar. Precisa de acolhimento, mas acredita que não merece. Com o tempo, a culpa se transforma em uma segunda jornada.

Assista ao vídeo sobre depressão pós parto:

Sobrecarga materna e solidão

A sobrecarga materna não envolve apenas trabalho. Ela também inclui um acúmulo de tarefas invisíveis, pequenas decisões ao longo do dia e uma responsabilidade emocional contínua. Além disso, existe a chamada carga mental: lembrar consultas, vacinas, roupas, lanches, escola, remédios, lista de compras e tudo o que mantém o funcionamento cotidiano da casa.

No Brasil, muitas mulheres enfrentam jornadas exaustivas. Para se ter uma ideia, um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), mostrou que as mulheres brasileiras dedicam, em média, 9,8 horas a mais por semana ao trabalho de cuidado não remunerado do que os homens. Entre mulheres negras, esse tempo é ainda maior e chega a 22,4 horas semanais.

Não por acaso, as mulheres estão entre os grupos mais afetados por desequilíbrios emocionais e transtornos mentais. De acordo com o relatório “Esgotadas”, realizado pela ONG Think Olga, em 2023, 45% das mulheres brasileiras entre 18 e 65 anos relataram diagnóstico de ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais.

Saúde mental materna

Quando falamos de saúde mental materna, é importante abordar o tema com cuidado, responsabilidade e sem alarmismo. A OMS aponta que, no mundo, cerca de 10% das gestantes e 13% das mulheres no pós-parto vivenciam algum transtorno mental, principalmente depressão. Ao mesmo tempo, a OMS reforça que cuidar da saúde mental da mãe traz benefícios para o bebê e para o desenvolvimento infantil.

Além disso, existe um fator de proteção que aparece de forma consistente em diferentes pesquisas: o suporte social. Uma revisão sistemática com meta-análise sobre apoio social e saúde mental na gravidez identificou que mulheres com maior suporte apresentam menor risco de desenvolver problemas de saúde mental.

Em resumo: muitas vezes, não se trata de fraqueza individual, mas de falta de rede de apoio.

Leia também:

Saúde mental da mulher: por que elas são mais afetadas por depressão, ansiedade e burnout?

 

Rede de apoio: o que é e por que faz tanta diferença

Muita gente imagina rede de apoio como algo grande e perfeito. Entretanto, ela também pode ser pequena, simples e funcional.

Ou seja, rede de apoio é tudo aquilo que reduz a sobrecarga e aumenta a sensação de segurança durante a maternidade. Isso pode incluir, por exemplo, alguém que:

  • fique uma hora com o bebê para a mãe descansar;
  • leve uma refeição;
  • busque a criança na escola;
  •  acompanhe uma consulta;
  • escute sem julgar.

Por outro lado, rede de apoio não é palpite. Também não é cobrança. E, certamente, não é ajuda acompanhada de chantagem emocional. Além disso, esse suporte não precisa vir apenas da família. Ele também pode surgir da vizinhança, da escola, dos serviços de saúde, de grupos de mães, de amizades, colegas de trabalho e, quando necessário, de profissionais especializados.

Rede de apoio da maternidade na prática

Necessidade da mãeSinal de alertaApoio que ajuda de verdade
Dormir e recuperar energia irritabilidade, choro fácil, exaustão ficar 60–90 min com a criança
Comer e hidratar pular refeições, tontura, fraqueza oferecer uma refeição
Tempo sem demandas sensação de “não parar nunca” revezamento de banho, rotina, tarefas
Escuta sem julgamento vergonha, isolamento conversa sincera e acolhedora
Cuidado profissional ansiedade intensa, tristeza persistente UBS, CAPS, psicoterapia, psiquiatria

Bem estar possível: o que cabe na vida real

Autocuidado não precisa ser SPA nem meta inalcançável. Pelo contrário, autocuidado possível é aquilo que cabe na rotina da maternidade, inclusive nos dias mais difíceis.

Alguns exemplos práticos:

  • 10 minutos de banho sem interrupção;
  • comer sentada e sem olhar para telas;
  • fazer uma caminhada curta;
  • mandar um áudio para alguém de confiança;
  • pausar as redes sociais por algumas horas.

Além disso, autocuidado também significa reduzir a exigência consigo mesma. Ou seja, escolher o suficientemente bom em vez do perfeito.

Maternidade e ansiedade: sinais que merecem atenção

Nem toda oscilação emocional indica problema. Contudo, alguns sinais sugerem que a saúde mental está pedindo suporte:

  • ansiedade que impede descanso, mesmo quando há tempo;

  • irritabilidade intensa e frequente;

  • sensação de incapacidade constante;

  • choro recorrente, vazio ou desesperança;

  • culpa que vira regra (“sou uma mãe ruim”);

  • isolamento e perda de prazer;

  • medo persistente de “algo ruim acontecer”.

Se esses sinais persistirem e começarem a causar prejuízos na rotina, buscar ajuda não é exagero. É cuidado.

Como pedir ajuda sem vergonha: roteiro curto para mães

Pedir ajuda pode dar medo. Ainda assim, esse pedido também pode ser o ponto de mudança de uma semana difícil.

Você pode usar frases simples, por exemplo:

  • “Estou no limite. Você pode ficar com ele por uma hora amanhã?”

  • “Preciso dormir. Você pode assumir o banho e o jantar hoje?”

  • “Não preciso de conselho agora. Eu preciso de presença.”

  • “Você pode me acompanhar em uma consulta?”

Além disso, pedir ajuda costuma funcionar melhor quando o pedido é específico. Ou seja: vale dizer exatamente qual tarefa precisa ser feita, em qual horário e por quanto tempo. Assim, fica mais fácil para a outra pessoa oferecer apoio concreto.

Como apoiar no Dia das Mães sem romantizar a maternidade

Se você quer homenagear uma mãe, flores são bonitas. Entretanto, apoio concreto pode ser transformador.

Para começar, algumas atitudes práticas:

  • dividir tarefas domésticas de forma justa e combinada;
  • assumir uma parte fixa da rotina (banho, escola, limpeza da casa ou mercado);
  • proteger a mãe de críticas e cobranças desnecessárias;
  • perguntar “o que te aliviaria hoje?” e realmente agir;
  • reforçar: “você não precisa dar conta sozinha”.

Quando buscar ajuda profissional

A maternidade não deveria ser vivida como um teste permanente de resistência. Contudo, quando o sofrimento persiste e começa a comprometer o funcionamento do dia a dia, vale procurar suporte profissional.

Por isso, é importante buscar avaliação quando houver:

  • tristeza persistente por semanas;
  • crises frequentes de ansiedade;
  • insônia;
  • sensação constante de incapacidade;
  • isolamento e perda de prazer;
  • prejuízo importante no autocuidado.

Romantizar a maternidade não protege as mães — apenas as silencia. Em contrapartida, falar sobre maternidade real, acolher a culpa materna, nomear a sobrecarga e construir rede de apoio ajuda a criar relações mais saudáveis para mães, filhos e famílias.

Por fim, se hoje você está cansada, isso não significa que você falhou. Significa só que você é humana e precisa de suporte. E, com apoio, a maternidade deixa de ser solidão e pode voltar a ser vínculo.

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