
Grandes eventos esportivos costumam mobilizar milhões de brasileiros. Nos últimos anos, porém, as apostas online passaram a ocupar um espaço cada vez maior nesse cenário. Hoje, elas estão presentes nas transmissões esportivas, nos patrocínios e nas redes sociais. Resultado: as bets se tornaram um problema de saúde pública.
Isso porque os impactos das apostas podem atingir diferentes áreas da vida e se intensificar à medida que o comportamento se torna problemático. Quando o jogo deixa de ser ocasional e passa a interferir na rotina, pode afetar a renda, o bem-estar emocional e as relações. Por isso, compreender os riscos associados às apostas é fundamental para prevenir problemas e identificar situações que precisam de atenção.
Best: impacto financeiro e na saúde mental
Problemas financeiros e endividamento costumam aumentar o estresse. Além disso, eles estão associados a quadros de sofrimento emocional, ansiedade e depressão.
Para entender a dimensão desse cenário, dados monitorados pela plataforma Placar das Bets mostram que mais de R$ 990 milhões foram apostados durante a Copa do Mundo de 2026. Outros números ajudam a dimensionar os impactos:
12,8 milhões de pessoas em risco: cerca de 25 milhões de brasileiros apostam. Desse total, mais de 50% apresenta comportamentos de risco associados aos jogos;
Comprometimento da renda básica: quase metade dos apostadores possui dívidas. Além disso, 30% já usaram recursos destinados a necessidades básicas, como alimentação e contas de luz, para jogar.
Custos para saúde pública: estimativas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) apontam impactos de R$ 38,8 bilhões por ano. O cálculo considera perda de qualidade de vida, tratamentos médicos e depressão. Desses custos, R$ 30,6 bilhões recaem sobre o SUS.
O conselheiro do IEPS, Armínio Fraga, reforça que a discussão sobre as bets não se restringe à economia. Ou seja, os impactos associados ao jogo problemático colocam o tema no campo da saúde pública e mostram a importância da prevenção e do acesso a cuidado especializado.
Quem está mais vulnerável?
Problemas relacionados às apostas podem atingir diferentes pessoas. No entanto, alguns grupos estão mais expostos aos riscos. É o caso de homens, jovens de 18 a 35 anos, quem vive em situação de vulnerabilidade social ou econômica e aqueles com redes de apoio mais frágeis.
Algumas características e comportamentos costumam favorecer uma relação problemática com o jogo, como impulsividade, busca por recompensas imediatas, solidão e uso das apostas como forma de aliviar emoções ou fugir de problemas. Períodos de estresse intenso ou mudanças importantes na vida, como luto e separação, também podem contribuir para esse comportamento.
Crianças e adolescentes exigem atenção especial
A exposição frequente à publicidade de apostas preocupa especialmente quando envolve crianças e adolescentes. Estudos indicam que esse público tem três vezes mais chances de desenvolver problemas relacionados aos jogos do que os adultos. Além disso, mais da metade desses jovens já visualizou anúncios de apostas durante transmissões esportivas ou nas redes sociais.
Veja aqui o perfil dos apostadores.
As plataformas utilizam recursos de engajamento e mecanismos de recompensa que podem estimular a permanência e a repetição das apostas. Nesse contexto, promessas de ganho fácil merecem atenção.
O mesmo vale para conteúdos que associam apostas a diversão, sucesso ou desempenho esportivo. Afinal, crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo habilidades relacionadas ao controle dos impulsos e à tomada de decisões. Nesse sentido, reduzir a exposição e ampliar a informação sobre os riscos são medidas importantes de proteção.
Por que as apostas online podem favorecer a dependência?
A facilidade de acesso pelo celular torna as apostas disponíveis a qualquer momento. Estudos internacionais mostram que esse acesso pode favorecer comportamentos repetitivos e dificultar o controle sobre o tempo e o dinheiro destinados ao jogo.
Ao mesmo tempo, as plataformas utilizam diferentes recursos para estimular o engajamento e a permanência do usuário, inclusive em momentos de maior vulnerabilidade, aumentando o risco de perda de controle.
Restrição da publicidade de bets e proteção Social
Diante do crescimento das apostas online, diferentes iniciativas vêm discutindo formas de ampliar a proteção da população, principalmente de crianças, adolescentes e pessoas mais vulneráveis ao jogo problemático. Entre as medidas debatidas estão restrições à publicidade, regras para determinados tipos de apostas e ações de prevenção e conscientização.
A experiência brasileira no enfrentamento ao tabagismo mostra como políticas públicas, regulação da publicidade e acesso à informação podem contribuir para mudanças de comportamento em larga escala. Após proibir a propaganda de cigarros, nos anos 2000, a taxa de fumantes adultos no Brasil caiu aproximadamente 7,5%.
No caso das bets, ampliar a informação sobre os riscos e estabelecer mecanismos de proteção são caminhos importantes para reduzir danos. Cuidar da saúde mental envolve também criar ambientes que favoreçam escolhas mais conscientes e protejam as pessoas diante de práticas potencialmente prejudiciais.
Onde buscar ajuda?
Se as apostas online estão causando prejuízos financeiros, sofrimento emocional ou dificuldades na rotina e nas relações, procure ajuda. O SUS oferece atendimento para problemas relacionados a jogos e apostas.
Pelo Meu SUS Digital, é possível fazer um autoteste e, conforme o resultado, acessar teleatendimento especializado em saúde mental. O atendimento também pode ser buscado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Outra medida de proteção é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda. A ferramenta permite bloquear contas em plataformas de apostas autorizadas, impedir a abertura de novas contas com o CPF e interromper publicidade direcionada. A autoexclusão pode ajudar a reduzir o acesso às apostas, mas não substitui o acompanhamento profissional quando necessário.
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