A saúde mental dos adolescentes é influenciada por diferentes fatores sociais. Um deles está relacionado à forma como interagem nas redes sociais. Esses espaços proporcionam conexões, aprendizado e senso de pertencimento, mas também podem intensificar conflitos e aumentar a exposição. Nesse contexto, discursos agressivos e mobilizações coletivas favorecem a chamada cultura do cancelamento.

Essa prática ocorre quando uma pessoa se torna alvo de rejeição coletiva por uma atitude, fala ou comportamento considerado inaceitável. Em algumas situações, o que começa como crítica ou cobrança por responsabilização evolui para humilhações, perseguições e tentativas de exclusão social.

 

Quando a crítica se transforma em cultura do cancelamento? 

Questionar comportamentos, cobrar responsabilidade e defender valores coletivos fazem parte do debate público. No entanto, há uma diferença entre criticar uma atitude e mobilizar pessoas para atacar ou excluir alguém.

Entre as características da cultura do cancelamento estão:

  • grande exposição pública;
  • rápida disseminação de acusações;
  • ataques coletivos;
  • pouco espaço para diálogo;
  • perda de contexto;
  • julgamentos precipitados;
  • tentativas de isolamento social;
  • pouca abertura para reconhecer mudanças ou reparar erros.

A partir daí, os efeitos podem ultrapassar as redes sociais e repercutir nas relações familiares, na convivência escolar e no bem-estar emocional.

 

A relação entre cultura do cancelamento, bullying e cyberbullying

A cultura do cancelamento não é sinônimo de bullying ou cyberbullying:

O bullying caracteriza-se por agressões repetidas e intencionais, geralmente presenciais, praticadas por uma pessoa ou por um grupo contra alguém em situação de vulnerabilidade.

Já as agressões praticadas por meios digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens, fóruns ou jogos online, recebem o nome de cyberbullying.

A cultura do cancelamento, por sua vez, está relacionada a uma mobilização coletiva de rejeição e costuma resultar em boicote, exposição ou tentativa de exclusão.

Portanto, nem todo cancelamento configura cyberbullying. Ainda assim, os dois fenômenos se sobrepõem em casos de perseguição contínua, ameaças, humilhações recorrentes ou campanhas coordenadas de ataques.

 

ConceitoComo acontece
Crítica  Questionamento ou avaliação de uma atitude, fala ou comportamento, sem envolver humilhação ou perseguição.
Bullying  Agressões repetidas, intencionais e geralmente presenciais, praticadas por uma pessoa ou por um grupo contra alguém em situação de vulnerabilidade.
Cyberbullying  Agressões repetidas e intencionais que ocorrem por meios digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens, fóruns ou jogos online.
Cultura do cancelamento  Mobilização coletiva de rejeição que pode levar à exposição, ao boicote ou à tentativa de exclusão de uma pessoa.

Por que a cultura do cancelamento afeta tanto os adolescentes?

A adolescência é marcada por importantes transformações físicas, emocionais, sociais e cognitivas. Durante esse processo, a construção da identidade e a busca por pertencimento ganham força, tornando a opinião dos pares especialmente relevante. Nesse cenário, situações de exposição, ridicularização ou rejeição pública costumam provocar sofrimento intenso.

No ambiente digital, essa exposição ganha outra dimensão: comentários, imagens e vídeos circulam com rapidez e alcançam muitas pessoas. O compartilhamento desses conteúdos fora do contexto original pode gerar a sensação de perda de controle sobre a própria imagem. Como reação, alguns jovens passam a evitar conversas, grupos ou manifestações públicas por medo de novas críticas.

“Do ponto de vista da saúde mental, é comum surgirem medo de julgamento, sensação de estar sendo observado e preocupação excessiva com a própria imagem.”

Gustavo Estanislau – psiquiatra infantojuvenil e especialista em saúde mental do Ame Sua Mente


Ansiedade
, isolamento social e queda da autoestima são algumas das possíveis manifestações desse sofrimento. Mudanças no sono, no apetite, no humor e no rendimento escolar são outros sinais importantes.

Por essa razão, famílias e educadores não devem minimizar o evento. Frases como “não liga para isso” ou “é só sair da internet” fazem com que o jovem se sinta ainda mais sozinho. Em contrapartida, ouvir sem julgamentos e demonstrar disponibilidade facilita o diálogo sobre o que está vivendo.

O que os dados mostram?

A cultura do cancelamento é um fenômeno social difícil de mensurar. Porém, pesquisas sobre experiências digitais ajudam a compreender o contexto no qual crianças e adolescentes estão inseridos.

De acordo com a  TIC Kids Online Brasil 2024, 29% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos relataram situações ofensivas ou discriminatórias online que não gostaram ou que os deixaram chateados.

Outro dado importante vem da PeNSE/IBGE 2026: 26,1% dos estudantes afirmaram sentir que ninguém se preocupa com eles.


Veja os resultados da PeNSE/IBGE 2026, no blog:

PeNSE IBGE: 3 em cada 10 adolescentes relatam tristeza frequente

 

No cenário internacional, a Organização Mundial da Saúde informou que 15% dos adolescentes em idade escolar relataram ter sofrido cyberbullying,

Essas pesquisas não medem diretamente a cultura do cancelamento, mas ajudam a dimensionar os desafios presentes no ambiente digital.

Sinais de que o cancelamento pode estar causando sofrimento

Nem sempre o jovem conta que está sendo alvo de exposição ou ataques nas redes sociais. Em geral, o silêncio está relacionado à vergonha, ao medo de piorar a situação, ao sentimento de culpa ou ao receio de perder o acesso ao celular e às redes.

Dessa forma, famílias e educadores devem observar mudanças de comportamento, como:

  • evitar o celular ou demonstrar angústia após usar as redes sociais;
  • apagar perfis, mensagens ou aplicativos repentinamente;
  • demonstrar medo de ir à escola ou participar de grupos;
  • evitar conversar sobre colegas, comentários ou publicações;
  • apresentar queda no rendimento escolar;
  • mudar os padrões de sono, apetite ou humor;
  • afastar-se de amigos e familiares;
  • demonstrar vergonha intensa ou medo constante de ser julgado.

Esses sinais não significam, necessariamente, que o adolescente esteja enfrentando uma dessas violências. Entretanto, podem indicar sofrimento emocional e merecem atenção.

 

O que diz a legislação brasileira?

Nos últimos anos, o Brasil ampliou a proteção de crianças e adolescentes contra diferentes formas de violência.

A Lei nº 13.185/2015, por exemplo, instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, estabelecendo diretrizes para prevenção, identificação e enfrentamento do bullying e do cyberbullying nas escolas.

Em 2024, a Lei nº 14.811 incluiu no Código Penal os crimes de intimidação sistemática (bullying) e intimidação sistemática virtual (cyberbullying). A norma ainda estabeleceu medidas de proteção contra a violência em estabelecimentos educacionais.

No mesmo ano, a Lei nº 14.819/2024 implementou a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. A iniciativa prevê a articulação entre educação, saúde e assistência social para promover a saúde mental e ampliar a atenção psicossocial no ambiente escolar.

 

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O papel da escola na prevenção da cultura do cancelamento

As leis são fundamentais, mas não bastam para transformar a maneira como crianças e adolescentes se relacionam. A prevenção passa pela construção de uma cultura escolar baseada na responsabilidade, na empatia e no diálogo.

Mesmo quando episódios de exposição ou ataques acontecem fora do ambiente escolar, seus efeitos costumam chegar à sala de aula, afetando a convivência, o aprendizado e o bem-estar dos estudantes. Por isso, as escolas precisam contar com estratégias de prevenção, acolhimento e encaminhamento.

Entre as ações que fortalecem esse trabalho estão:

  • promover conversas sobre cidadania digital e uso responsável das redes sociais;
  • orientar os estudantes sobre os impactos emocionais e legais de comportamentos ofensivos online;
  • ensinar a diferença entre crítica, responsabilização, humilhação e perseguição;
  • disponibilizar canais para que os estudantes possam pedir ajuda;
  • apoiar os envolvidos sem aumentar sua exposição;
  • incluir as famílias na busca por soluções;
  • estimular práticas de responsabilização e reparação, quando possível;
  • acionar a rede de proteção quando necessário;
  • desenvolver iniciativas permanentes voltadas à saúde mental e à qualidade das relações na escola.

Para que essas estratégias funcionem, os educadores também precisam de apoio. Afinal, lidar com conflitos digitais e suas repercussões na saúde mental exige formação e uma rede de suporte.

Promover o bem-estar na escola é uma responsabilidade compartilhada entre estudantes, famílias, educadores, gestores e profissionais da saúde.

 

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Há cinco anos, o Instituto Ame Sua Mente desenvolve e implementa projetos voltados à promoção da saúde mental no ambiente escolar. Além disso, transforma conhecimento científico em conteúdos e iniciativas que aproximam o tema do cotidiano das escolas e das famílias.

 

FAQ – Dúvidas frequentes sobre a cultura do cancelamento

O que é cultura do cancelamento?
A cultura do cancelamento é um fenômeno social em que uma pessoa passa a ser alvo de julgamento público, geralmente nas redes sociais, podendo sofrer ataques, boicote ou exclusão após uma fala, atitude ou comportamento considerado inadequado.

Cultura do cancelamento é crime?
A cultura do cancelamento, por si só, não é um crime previsto na legislação brasileira. No entanto, algumas práticas associadas a ela podem ter consequências legais, como ameaças, injúria, difamação, perseguição, exposição indevida e cyberbullying.

Qual é a diferença entre crítica e cancelamento?
A crítica busca questionar uma atitude, comportamento ou ideia e pode favorecer a reflexão e o diálogo. Já o cancelamento costuma envolver exposição pública, ataques coletivos e tentativas de exclusão social, muitas vezes sem abertura para diálogo ou possibilidade de reparação.

Cultura do cancelamento afeta a saúde mental?
Sim. A exposição pública, os ataques em grupo e o medo constante de julgamento podem favorecer ansiedade, vergonha, isolamento social, queda da autoestima e sofrimento emocional, especialmente entre os jovens.

Cultura do cancelamento é a mesma coisa que cyberbullying?
Não. A cultura do cancelamento envolve um julgamento coletivo que pode levar à exposição pública, ao boicote e à exclusão social. Já o cyberbullying consiste em agressões repetidas praticadas por meios digitais. Apesar das diferenças, os dois fenômenos podem se sobrepor quando há perseguição, humilhação ou ataques contínuos.

O que fazer se um adolescente está sendo cancelado nas redes?
O primeiro passo é escutá-lo sem julgamentos e não culpabilizá-lo pela situação. Também é importante guardar evidências, denunciar conteúdos ofensivos, evitar ampliar a exposição, comunicar a escola quando houver estudantes envolvidos e buscar apoio psicológico ou psiquiátrico se o sofrimento for intenso ou persistente.

 

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