Animais de estimação e saúde mental: afeto, rotina e cuidado em duas vias

Em muitas casas, a primeira recepção ao chegar do trabalho ou da escola vem de um rabo abanando na porta ou de um miado insistente pedindo atenção. Relatos de tutores são semelhantes: o pet “faz companhia”, ajuda a atravessar dias difíceis, incentiva o movimento e traz leveza para a rotina. Assim, cães, gatos e outros animais de estimação ocupam cada vez mais espaço na família. Com isso, cresce também o interesse em compreender a relação entre animais de estimação e saúde mental.

Aos poucos, a ciência vem confirmando parte dessas percepções. Isto é, estudos mostram associações entre convivência com animais, bem-estar emocional e redução do estresse. Ainda assim, é fundamental lembrar que ter um animal não é uma solução mágica nem substitui a psicoterapia ou o tratamento médico. Em outras palavras, trata-se de um vínculo potente, mas que exige responsabilidade, limites e planejamento.

Ao longo deste texto, vamos explorar o que a ciência já sabe sobre a relação entre animais de estimação e saúde mental e como esse convívio pode ajudar no cotidiano. Além disso, vamos falar também sobre os cuidados necessários e o que considerar antes de trazer um pet para casa.

O que a ciência já sabe sobre animais de estimação e saúde mental?

As pesquisas sobre a influência de animais de estimação na saúde mental ainda estão em desenvolvimento. No entanto, algumas tendências aparecem com frequência em estudos observacionais e revisões: tutores relatam menos solidão, maior apoio social, mais atividade física e uma sensação ampliada de propósito no dia a dia.

Para organizar essas evidências, veja um panorama sintetizado:

Aspecto investigadoTendências observadas em pesquisas*
Humor e depressãoAlguns estudos apontam menor probabilidade ou menor gravidade de sintomas depressivos em pessoas com pets, especialmente quando há vínculo afetivo forte.
Estresse e ansiedadeInteragir com animais (como acariciar um cão) pode reduzir níveis de cortisol e aumentar sensação de calma e relaxamento.
Sensação de solidãoTutores relatam sentir-se menos sozinhos, com maior percepção de companhia diária e rotina mais significativa.
Saúde cardiovascularAlguns trabalhos sugerem pressão arterial mais estável em situações de estresse e menor risco cardiovascular, sobretudo em tutores de cães.
Apoio em transtornos mentaisPessoas com transtornos mentais de longa duração descrevem o pet como fonte importante de apoio emocional e organização do dia.

*Esses achados indicam associações, porém não garantem relações diretas de causa e efeito. 

Em resumo, a literatura aponta que o impacto não depende apenas de “ter” um animal, mas da forma como essa relação se constrói e se integra à rotina e a outras formas de cuidado.

Como os animais de estimação ajudam a saúde mental no cotidiano?

Quando falamos em animais de estimação e saúde mental, é comum ouvir a expressão “amor incondicional”. Mas, na prática, o que faz esse convívio gerar tanto impacto? A seguir, vamos conhecer alguns benefícios:

 

1. Movimento e rotina: o corpo também entra em cena

Cuidar de um animal envolve ações repetidas ao longo do dia: colocar ração, encher o pote de água, limpar a caixa de areia, levar para passear, brincar um pouco antes de dormir.

Esses gestos, aparentemente simples, ajudam a:

  • tirar o corpo da inércia;

  • criar uma estrutura mínima de rotina;

  • favorecer o contato com luz natural e ambientes externos (no caso dos passeios);

  • quebrar longos períodos sentado ou deitado.

Portanto, em quadros de depressão ou desânimo, por exemplo, essa responsabilidade diária pode funcionar como um incentivo para sair da cama, tomar ar e se movimentar – o que, por sua vez, contribui para a regulação do humor e do sono.

 

2. Menos solidão, mais sensação de companhia

Muita gente vive sozinha ou se sente emocionalmente isolada, mesmo quando mora com outras pessoas. Então, nesses casos, a presença de um pet pode reduzir a sensação de vazio e ampliar as experiências de vínculo. Afinal, animais de estimação costumam:

  • receber o tutor com entusiasmo ou proximidade;

  • oferecer contato físico, como colo e carinho, sem julgamento;

  • permanecer por perto em momentos de tristeza, choro ou ansiedade.

Já em fases de transição — mudança de cidade, separação, luto ou saída dos filhos de casa — o pet pode ajudar a atravessar a sensação de “casa vazia”.  Neste sentido, ele funciona como ponto de estabilidade afetiva.

 

3. Regulação emocional e “ancoragem” no presente

Outra vantagem de conviver com animais de estimação é o foco no presente. Isto é, os animais estão sempre voltados para o aqui e agora: o passeio, o cheiro, a brincadeira, o barulho ao redor. Esse movimento é especialmente benéfico para pessoas que vivenciam estados de ansiedade, nos quais os pensamentos tendem a se projetar para o futuro ou a ficar presos ao passado.

Além disso, ao acariciar um pet, observar sua respiração, brincar ou simplesmente estar por perto, pode proporcionar:

  • desaceleração física e mental;

  • maior sensação de presença no momento atual;

  • alívio temporário de preocupações intensas.

Ao mesmo tempo, diversos estudos apontam que até interações breves com animais podem reduzir o hormônio do estresse (cortisol) e, ainda, estimular a liberação de substâncias associadas ao prazer e ao vínculo, como a ocitocina e a dopamina.

 

4. Facilitação de vínculos sociais

Animais também funcionam como facilitadores de contato social. Por exemplo, tutores de cães costumam:

  • conversar com outros tutores em praças e ruas;
  • participar de grupos de bairro para passeios;
  • trocar informações e histórias sobre comportamento e saúde dos animais.

Participar de comunidades de amantes de cães, gatos ou outros bichos, inclusive no ambiente on-line, também pode fortalecer o senso de pertencimento. Nesse contexto, pessoas tímidas ou com ansiedade social tendem a se sentir mais à vontade para iniciar conversas, tendo o pet como ponto de conexão.

 

5. Propósito, responsabilidade e autocuidado

Por fim, há o efeito da responsabilidade. Isso ocorre porque um animal depende do tutor para quase tudo: alimentação, abrigo, cuidados de saúde, higiene e brincadeiras. Sendo assim, essa responsabilidade pode reforçar:

  • a sensação de ser importante para alguém;

  • o sentimento de propósito;

  • a necessidade de organizar horários e prioridades;

  • a percepção de que, para cuidar do pet, também é preciso cuidar de si.

Em muitos relatos, o pet aparece como alguém por quem vale tentar melhorar.

 

Animais de estimação e saúde mental nas diferentes fases da vida

Os efeitos da convivência com animais variam conforme a fase da vida e o contexto.

Fase da vidaPossíveis benefíciosCuidados importantes
InfânciaEstímulo ao brincar, à empatia e à responsabilidade; companhia em mudanças de escola ou cidade.Supervisão constante nas interações; respeito ao espaço do animal; atenção a alergias e higiene.
AdolescênciaAcolhimento em meio a inseguranças e conflitos; espaço de expressão sem julgamento; sensação   de ser amado.Garantir que o pet não seja única fonte de apoio; divisão de tarefas com adultos; limites claros.
Vida adultaAlívio do estresse do trabalho; incentivo à pausa e ao lazer; companhia para quem mora sozinho.Planejar horários, gastos e viagens; evitar assumir mais do que é possível cuidar.
VelhiceRedução da solidão; manutenção de movimento (passeios); estímulo cognitivo e afetivo.Escolher espécie e porte compatíveis com limitações físicas; planejar quem cuidará do pet em emergências.

Nem tudo é benefício: quando a relação com o pet gera sofrimento

Apesar dos aspectos positivos, toda relação significativa também envolve desafios. Com os animais, não é diferente. Portanto, alguns pontos a considerar:

Sobrecarga e estresse

Cuidar de um animal exige tempo, energia e dinheiro. Ou seja, em famílias com rotina já muito sobrecarregada, a chegada de um pet sem planejamento pode aumentar o cansaço, como também o conflito sobre divisão de tarefas e a sensação de “não dar conta de tudo”.

Esse cenário é ainda mais delicado quando há crianças pequenas, idosos dependentes ou alguém em tratamento intensivo de saúde.

Questões financeiras

Despesas com ração, areia, brinquedos, consultas veterinárias, vacinas, medicamentos e emergências podem pesar no orçamento. Assim, em alguns casos, o medo de não conseguir arcar com esses custos torna-se fonte de ansiedade.

Luto e despedida

Animais vivem menos que humanos. Portanto, em algum momento, é comum que surja a fase de adoecimento e, posteriormente, a despedida. Nesse contexto, em famílias com forte vínculo afetivo, a morte do pet costuma ser vivenciada como um luto real, com impacto emocional significativo.

Já no caso de pessoas com histórico de depressão ou outros transtornos, essa perda pode funcionar como gatilho para recaídas, exigindo acolhimento e, às vezes, retomada de tratamento.

 

Animais de estimação e saúde mental: quando o vínculo fica “apertado demais” 

Em algumas circunstâncias, o pet passa a ocupar o lugar de única relação afetiva significativa. Ou seja, a pessoa se isola de amigos, família e atividades externas, mantendo laços quase exclusivamente com o animal.

Embora o pet ofereça conforto, esse padrão pode:

  • reforçar o isolamento social;

  • dificultar a busca de ajuda profissional;

  • sobrecarregar emocionalmente a relação com o próprio animal.

Nesses casos, o desafio não é afastar o pet, mas ampliar a rede de apoio humana ao redor.

 

Antes de adotar: perguntas que ajudam a tomar uma decisão consciente

Se você está considerando adotar um animal — seja pela companhia, seja pelo possível impacto positivo na saúde mental — vale desacelerar e refletir. Responder com sinceridade a algumas perguntas pode evitar sofrimento no futuro:

Pergunta-chavePor que isso importa?
Como está minha rotina hoje?Animais precisam de tempo diário. Porém, uma agenda muito imprevisível dificulta o cuidado.
Tenho condições financeiras mínimas?Alimentação, vacinas, consultas e imprevistos são gastos recorrentes.
Quem mora comigo concorda com a adoção?Alinhamento evita conflitos e garante um ambiente mais seguro para o animal
Há alguém que possa ajudar nos cuidados?Ter rede de apoio é fundamental para viagens, internações ou emergências.
O espaço físico é adequado ?Porte e nível de atividade do animal precisam ser considerados.
Estou pronto para um compromisso de longo prazo?Cães e gatos podem viver muitos anos; é importante considerar isso desde o princípio.

Essas reflexões não têm o objetivo de desmotivar, mas de favorecer um encontro mais saudável entre tutor e animal.

 

Animais de estimação e saúde mental: parte de uma rede de cuidado

A essa altura, fica claro que a relação entre animais de estimação e saúde mental é rica e, muitas vezes, bastante benéfica. Entretanto, é essencial situar o papel dos pets dentro de uma visão mais ampla de cuidado.

Portanto, animais podem:

  • favorecer rotina, movimento e vínculos;

  • oferecer conforto em momentos difíceis;

  • reduzir a sensação de solidão;

  • criar oportunidades de contato social e expressão emocional.

Porém, eles não substituem:

  • psicoterapia em quadros de sofrimento persistente;

  • acompanhamento psiquiátrico quando há indicação;

  • redes de apoio (família, amigos, comunidade);

  • outros hábitos fundamentais, como, por exemplo, sono adequado, alimentação equilibrada e limites para o estresse.

Então, se sinais como tristeza persistente, perda de interesse nas atividades, alterações no sono ou no apetite, ou ainda, dificuldade para lidar com tarefas do dia a dia aparecerem, buscar ajuda profissional é um passo essencial — independentemente de ter ou não um pet.

Afinal, a relação com os animais atravessa séculos e continua nos lembrando do valor da presença, da pausa e do cuidado cotidiano. Quando construída com responsabilidade e respeito mútuo, essa convivência pode se tornar um encontro significativo — não como solução para o sofrimento, mas como parte de uma vida mais conectada e consciente.

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