Enem: como lidar com a ansiedade e o medo da reprovação

O período de preparação para o Enem e outros vestibulares envolve expectativas, mudanças na rotina e decisões sobre o futuro. Para muitos estudantes, essa fase também pode despertar ansiedade, insegurança e medo da reprovação. Esses sentimentos podem se intensificar diante da cobrança por bons resultados. Quando a pressão se torna excessiva e persistente, pode comprometer o bem-estar emocional e tornar esse período mais desgastante.

Esse cuidado merece atenção especial durante a adolescência, etapa marcada por transformações físicas, emocionais e sociais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos vive com algum transtorno mental. O dado reforça a importância de ambientes que favoreçam o desenvolvimento saudável e ofereçam apoio diante das dificuldades.

Pressão por resultados e medo da reprovação no Enem

A cobrança pelo desempenho acadêmico pode surgir de diferentes fontes: expectativas pessoais e familiares, exigências escolares, comparação com colegas ou a percepção de que a aprovação determinará as oportunidades futuras.

Para alguns estudantes, não alcançar o resultado esperado significa mais do que adiar a entrada na universidade. O medo de decepcionar outras pessoas ou de não corresponder às próprias expectativas pode intensificar o sofrimento emocional.

Nesse processo, o adolescente pode passar a associar seu desempenho ao próprio valor, interpretando resultados abaixo do esperado como sinais de incapacidade. Essa percepção pode intensificar a ansiedade, prejudicar a concentração e gerar a sensação de que é necessário estudar continuamente, sem espaço para descanso.

Entretanto, uma prova não define a inteligência ou o potencial de uma pessoa. Reconhecer que existem diferentes caminhos para a formação acadêmica e profissional ajuda a construir uma perspectiva menos rígida sobre a aprovação.

O que dizem as pesquisas sobre ansiedade entre vestibulandos?

Estudos brasileiros têm investigado a relação entre a preparação para o vestibular e indicadores de saúde mental, como ansiedade, estresse e exaustão emocional.

Um estudo publicado em 2026, com 770 pré-vestibulandos, analisou indicadores de burnout e recursos psicológicos. Os resultados identificaram associações entre maiores níveis de resiliência e regulação emocional e menores níveis de exaustão e desengajamento. Embora não estabeleçam relações de causa e efeito, esses achados contribuem para a compreensão dos fatores relacionados ao bem-estar dos estudantes.

Outra pesquisa, publicada em 2024, analisou a saúde mental de jovens matriculados em um curso pré-vestibular comunitário. O estudo buscou compreender as dificuldades emocionais vivenciadas durante a preparação para o ingresso no ensino superior, contribuindo para a discussão sobre os fatores que podem afetar o bem-estar desses estudantes.

Como os estudos foram realizados com grupos específicos, seus resultados não podem ser generalizados para todos os vestibulandos brasileiros. Ainda assim, contribuem para compreender os desafios relacionados à preparação para os exames.

Quais sinais podem indicar sofrimento emocional?

Sentir ansiedade antes do Enem ou de outras avaliações é uma reação esperada. Porém, quando o sofrimento se torna intenso, persistente ou interfere na rotina, merece atenção.

Entre os sinais de alerta, estão:

  • Alterações no sono, como insônia ou sonolência excessiva;
  • Mudanças significativas no apetite;
  • Dificuldade de concentração ou queda acentuada no rendimento;
  • Irritabilidade, tristeza ou preocupação frequentes;
  • Cansaço persistente e sensação de sobrecarga;
  • Isolamento de amigos e familiares;
  • Perda de interesse por atividades antes prazerosas;
  • Queixas físicas recorrentes, como dores de cabeça ou desconfortos, , especialmente quando aparecem em períodos de maior tensão.

A presença desses sinais não significa, necessariamente, que o adolescente tenha um transtorno mental. É fundamental observar mudanças em seu comportamento habitual, considerando a duração, a intensidade e o impacto dos sintomas na vida cotidiana.

Caso essas manifestações provoquem sofrimento significativo ou prejudiquem as atividades diárias, é importante buscar avaliação de um profissional de saúde. Em situações de risco imediato à segurança do adolescente, deve-se procurar atendimento de emergência.

 

Precisa de ajuda em saúde mental

Como educadores podem reconhecer sinais de sofrimento e acolher estudantes?

Educadores estão em uma posição importante para perceber mudanças no cotidiano escolar e contribuir para que os adolescentes se sintam apoiados. Isso não significa que devam diagnosticar problemas de saúde mental, mas que podem observar, acolher e buscar encaminhamentos quando necessário.

1. Observe mudanças no comportamento
Preste atenção a alterações em relação ao modo habitual de o estudante participar das aulas, interagir com colegas e realizar atividades. Isolamento, irritabilidade, cansaço frequente, queda na participação ou dificuldade de concentração podem indicar que algo não vai bem.

2. Abra espaço para uma conversa cuidadosa
Uma abordagem simples, respeitosa e sem julgamento pode ajudar o adolescente a se sentir seguro para falar. Além disso, evite pressionar o estudante a compartilhar algo para o qual ainda não está preparado.

3. Escute sem minimizar ou comparar
Frases como “isso é só uma fase”, “todo mundo passa por isso” ou “você precisa se esforçar mais” podem fazer com que o adolescente se sinta incompreendido. Em vez disso, reconheça o que ele está sentindo. Acolher não significa retirar todos os desafios, mas mostrar que ele não precisa enfrentá-los sozinho.

4. Ajude a reduzir a pressão para o Enem
Valorize o processo de aprendizagem, o esforço e os avanços, não apenas as notas ou a aprovação. Evite comparações entre estudantes e mensagens que associem sucesso exclusivamente ao ingresso em uma universidade. Reforce que existem diferentes caminhos para o futuro e que uma prova não resume a trajetória de ninguém.

5. Articule apoio e encaminhamentos
Quando o sofrimento persiste ou interfere na rotina, converse com a equipe responsável da escola e, conforme os protocolos da instituição, articule o diálogo com a família e o encaminhamento para apoio profissional. A escola pode contribuir para a prevenção e o acolhimento, mas não deve assumir sozinha o cuidado que exige acompanhamento especializado.

O papel das famílias e o apoio para além do Enem

Famílias também podem ajudar a tornar esse período menos solitário e menos marcado pela cobrança.

Algumas atitudes podem contribuir:

  • Perguntar como o adolescente está se sentindo, e não apenas sobre seu desempenho nas provas;
  • Reconhecer o esforço sem transformar a aprovação em condição para orgulho ou afeto;
  • Evitar comparações com irmãos, amigos ou outros estudantes;
  • Incentivar momentos de descanso, lazer e convivência;
  • Ajudar a organizar uma rotina de estudos que respeite as necessidades de descanso e bem-estar;
  • Procurar apoio profissional quando o sofrimento for persistente ou intenso.

Acima de tudo, é importante que o adolescente saiba que seu valor pessoal não depende do resultado de uma prova.

 

Três pilares de cuidado durante a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio

No videocast do Instituto Ame Sua Mente, episódio 23, a psicóloga e pedagoga Ana Carolina D’Agostini, especialista do Instituto, destaca três cuidados fundamentais para a saúde mental durante a preparação para o Enem: sono, alimentação e atividade física.

Embora não eliminem a ansiedade, esses hábitos contribuem para o bem-estar físico e emocional e ajudam a sustentar uma rotina de estudos mais saudável.

Sono: descanso também faz parte da preparação

Dormir é importante para o descanso, a memória, a atenção e a recuperação do corpo. Reduzir continuamente o tempo de sono para estudar pode prejudicar o bem-estar e dificultar a própria aprendizagem.

Manter horários regulares para dormir e acordar, criar um ambiente adequado ao descanso e preservar o tempo necessário de sono são cuidados importantes, especialmente durante períodos de maior exigência acadêmica..

Alimentação: cuidado sem cobranças extras

Uma alimentação regular, variada e equilibrada favorece o funcionamento do organismo e a manutenção da energia ao longo do dia. Em períodos de ansiedade, alguns adolescentes podem perceber mudanças no apetite ou na rotina alimentar.

O objetivo não é seguir uma dieta perfeita, mas manter uma rotina que atenda às necessidades nutricionais, sem transformar esse cuidado em mais uma fonte de pressão.

Atividade física: movimento como parte do bem-estar

A prática regular de atividade física contribui para a melhora do humor, a qualidade do sono e para a redução de  sintomas de ansiedade. Caminhar, dançar, praticar esportes ou realizar outras atividades prazerosas são algumas possibilidades. O mais importante é encontrar formas de movimento adequadas à rotina, às condições e às preferências de cada adolescente.

Esses hábitos são importantes para a promoção da saúde mental, mas não substituem a avaliação e o acompanhamento profissional quando necessários.

Prevenção e acolhimento: a saúde mental se constrói coletivamente

Cuidar da saúde mental durante a preparação para o Enem não significa eliminar todos os desafios ou impedir que o estudante sinta ansiedade. Significa criar condições para que ele possa atravessar essa fase com apoio, equilíbrio e espaço para pedir ajuda.

Nesse processo, escolas e famílias compartilham a responsabilidade de construir ambientes de apoio, nos quais o desempenho acadêmico não se sobreponha às necessidades emocionais e ao desenvolvimento dos estudantes.

Assista ao videocast do Instituto Ame Sua Mente:

Quer aprofundar a conversa sobre saúde mental durante a preparação para o Enem e outros vestibulares?

Assista ao episódio 23 do videocast do Instituto Ame Sua Mente, com Ana Carolina D’Agostini, e compartilhe o conteúdo com educadores, famílias e estudantes.

Fontes e Referências Científicas:

 

Leia também:

Por que educadores preparados em saúde mental enfrentam melhor os desafios na escola

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