
Apelidos ofensivos, exclusão do grupo, humilhações e agressões que se repetem podem ser sinais de bullying. Muitas vezes, porém, ainda existe dificuldade para diferenciar esse tipo de violência de uma brincadeira entre crianças e adolescentes.
De acordo com o Centers Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, bullying é um comportamento agressivo indesejado, marcado por um desequilíbrio de poder real ou percebido. Além disso, esse comportamento se repete ou apresenta alta probabilidade de voltar a ocorrer.
No Brasil, a Lei 13.185/2015 considera bullying todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo, praticado por uma pessoa ou grupo contra uma ou mais pessoas. A legislação inclui, entre outras manifestações, intimidação, humilhação, discriminação, insultos, ameaças e isolamento social.
As duas definições destacam elementos importantes:
- comportamento agressivo indesejado;
- desequilíbrio de poder, que pode envolver aspectos físicos, sociais ou psicológicos;
- repetição ou alta probabilidade de que o comportamento se repita.
No ambiente escolar, o problema não se restringe a quem sofre e a quem pratica a agressão. O bullying pode afetar o bem-estar emocional, a convivência, o aprendizado e a vida escolar. Por isso, saber identificar os sinais é fundamental para agir mais cedo, acolher quem sofre e evitar que a situação continue. Ao mesmo tempo, seu enfrentamento exige uma resposta coletiva, que envolva toda a comunidade escolar.
Vale lembrar que um conflito ou uma agressão isolada, embora exijam atenção, não são necessariamente bullying.
Tipos mais comuns de bullying
O bullying pode se manifestar de diferentes formas. Entre as mais comuns estão:
- verbal: apelidos ofensivos, xingamentos e humilhações;
- social ou relacional: exclusão, isolamento e disseminação de boatos;
- físico: empurrões e outras agressões;
- material: esconder, destruir ou pegar objetos sem permissão.
Há ainda o cyberbullying, praticado em ambientes digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos e grupos online. Nesses espaços, conteúdos ofensivos tem maior poder de alcance. Outro aspecto importante é que os conteúdos podem permanecer disponível e ser compartilhados repetidamente.
Leia mais sobre cyberbullying no blog:
Sinais de bullying em quem sofre
Nem sempre crianças e adolescentes contam que estão sofrendo bullying. Neste contexto, é importante observar mudanças de comportamento que persistem ou aparecem de forma recorrente.
Emocionais e comportamentais
– tristeza, irritabilidade ou ansiedade relacionadas à escola;
– vontade de faltar ou evitar determinados espaços;
– perda de interesse por atividades;
– receio de checar o celular ou participar de grupos online.
Físicos e de rotina
– alterações no sono;
– mudanças de apetite;
– dores de cabeça ou mal-estar recorrente;
– materiais ou pertences que desaparecem com frequência.
Escolares e sociais
– queda no desempenho;
– perda de concentração;
– afastamento dos amigos;
– mudanças repentinas nos grupos de convivência.
Atenção: nenhum desses sinais, isoladamente, confirma uma situação de bullying. No entanto, quando vários aparecem ao mesmo tempo ou persistem, é importante conversar com a criança ou adolescente. Assim, é possível entender melhor o que está acontecendo e avaliar a situação com cuidado.
Sinais em quem pratica bullying
Da mesma forma, alguns comportamentos recorrentes podem indicar envolvimento em situações de bullying.
Nesses casos, a intervenção dos adultos é importante tanto para estabelecer limites como para promover a responsabilização e favorecer mudanças de comportamento.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
- tentar dominar ou humilhar colegas;
- rir ou incentivar situações de constrangimento;
- apresentar dificuldade para lidar com frustrações e limites;
- justificar agressões com frases como “ele mereceu” ou “era brincadeira”;
- espalhar boatos, excluir colegas ou tentar controlar quem pode participar dos grupos.
Diante desses comportamentos, a resposta não deve se limitar à punição. Sempre que possível, é importante combinar proteção de quem sofreu, responsabilização de quem praticou a agressão, reparação e acompanhamento, sempre considerando as características e a gravidade de cada situação.

“Estudos tem mostrado que medidas punitivas tendem a piorar o quadro, então devemos investir mais na identificação precoce dos casos. As pessoas ainda tem dificuldade de diferenciar o que é bullying de uma brincadeira.”
Quem assiste também conta: o papel das testemunhas
O bullying frequentemente envolve quem sofre, quem pratica e quem presencia a situação. Nessas situações, a atuação das testemunhas pode contribuir para interromper e desestimular esse comportamento.
Por isso, algumas atitudes seguras podem fazer a diferença:
- apoiar quem está sofrendo;
- procurar um adulto de confiança;
- não curtir, comentar ou compartilhar conteúdos humilhantes;
- registrar o ocorrido e buscar ajuda, em vez de revidar.
Ouça também nosso podcast sobre o tema:
O que mostram os dados
| Indicador | Índice no Brasil |
|---|---|
| Adolescentes (13–17) que relataram ter sofrido bullying na escola | 39,8% |
| Meninas (13–17) que relataram bullying na escola | 43,3% |
| Motivo mais citado do bullying | Aparência do rosto ou cabelo: 30,2% |
| Estudantes (13–17) que disseram ter praticado bullying | 13,7% |
| Adolescentes (13–17) que já foram fisicamente agredidos por colegas | 16,6% |
| Estudantes que sofreram bullying nas redes sociais (cyberbullying) | 12,7% |
| Cyberbullying em meninas | 15,2% |
| Cyberbullying em meninos | 10,3% |
| Adolescentes que disseram ter praticado cyberbullying | 10,0% |
Fonte: IBGE (PeNSE 2024)
O que a escola pode fazer
Prevenir e enfrentar o bullying exige uma atuação coletiva. Nesse processo, é importante estabelecer regras claras, fortalecer uma cultura de respeito, envolver os estudantes e garantir a presença consistente dos adultos.
1) Criar uma política de convivência clara e conhecida por todos
- definir o que é bullying e apresentar exemplos;
- estabelecer medidas de proteção e responsabilização;
- divulgar canais seguros para pedir ajuda.
2) Investigar sem expor os envolvidos
- ouvir quem sofreu em um ambiente seguro;
- conversar separadamente com testemunhas;
- documentar fatos (datas, locais, recorrência);
- acionar coordenação/orientação quando necessário.
3) Trabalhar habilidades socioemocionais e o clima escolar
- desenvolver atividades sobre empatia, respeito e diversidade;
- construir combinados de convivência;
- criar rotinas de acolhimento;
- adotar práticas restaurativas quando forem adequadas e seguras.
Veja nosso caderno de recomendações com estratégias práticas para a gestão escolar:
O que a família pode fazer
Conversar regularmente sobre a escola, as amizades e a vida online cria oportunidades para que crianças e adolescentes compartilhem dificuldades e peçam ajuda. Além disso, manter esse diálogo ajuda os adultos a perceber mudanças importantes no comportamento.
Se seu filho está sofrendo bullying
- escute sem interromper;
- agradeça pela confiança;
- acolha seus sentimentos;
- evite culpabilizá-lo;
- registre o que aconteceu, incluindo onde, quando e com quem;
- procure a escola e peça informações sobre as medidas que serão adotadas;
- fortaleça a rede de apoio da criança ou do adolescente.
Se seu filho parece estar praticando bullying
A situação também exige atenção e acompanhamento dos adultos. Nesse caso, a família pode:
- conversar com firmeza, sem humilhar;
- estabelecer limites e consequências educativas;
- ajudá-lo a compreender os efeitos de suas atitudes;
- incentivar formas adequadas e seguras de reparação;
- acompanhar mudanças de comportamento;
- buscar apoio profissional caso existam sinais persistentes de sofrimento emocional ou outras dificuldades.
É importante orientar crianças e adolescentes a buscar ajuda, em vez de revidar. Assim, é possível evitar novas agressões e buscar uma resposta adequada.
Nesse sentido, prevenir o bullying significa interromper ciclos de comportamentos agressivos. Para isso, é necessário proteger quem sofre, responsabilizar quem pratica e envolver toda a comunidade escolar.
Por fim, se você está preocupado com um episódio desse tipo, procurar apoio é uma forma de cuidado. Afinal, o diálogo e a presença dos adultos podem ajudar crianças e adolescentes a enfrentar a situação com mais segurança.
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