A saúde mental dos adolescentes pode ser influenciada por diversos fatores sociais. Entre eles, destaca-se o uso intenso das redes sociais. Embora esses espaços favoreçam conexões, aprendizado e senso de pertencimento, também podem ampliar conflitos, exposição e violência, especialmente durante a adolescência. Nesse contexto, discursos agressivos e mobilizações coletivas podem alimentar a chamada cultura do cancelamento.

Essa prática pode funcionar como uma forma de linchamento virtual, em que uma pessoa passa a ser alvo de ataques, exclusão ou boicote por atitudes consideradas inaceitáveis. Em muitas situações, o que começa como uma crítica ou um pedido de responsabilização evolui para humilhação pública, perseguição e intenso sofrimento emocional.

 

Quando a crítica se transforma em cultura do cancelamento? 

Em uma sociedade democrática, questionar comportamentos, cobrar responsabilidade e defender valores coletivos faz parte do debate público. No entanto, a situação muda quando o objetivo deixa de ser promover reflexão e passa a incentivar punição pública, exclusão e ataques repetidos.

A cultura do cancelamento costuma envolver:

  • grande exposição pública;
  • rápida disseminação de acusações;
  • ataques coletivos;
  • pouco espaço para diálogo;
  • perda de contexto;
  • julgamentos precipitados;
  • incentivo ao isolamento social;
  • dificuldade para reconhecer mudanças ou reparar erros.

Nesses casos, o impacto pode ultrapassar o ambiente digital e atingir a vida escolar, familiar, profissional e emocional.

 

Cultura do cancelamento, bullying e cyberbullying: qual é a relação?

A cultura do cancelamento não é sinônimo de bullying ou cyberbullying. No entanto, esses fenômenos podem acontecer ao mesmo tempo quando envolvem humilhação, perseguição, exposição pública e ataques repetidos.

O bullying caracteriza-se por agressões repetidas e intencionais, geralmente presenciais, praticadas por uma pessoa ou por um grupo contra alguém em situação de vulnerabilidade. Quando essas agressões ocorrem por meios digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens, fóruns ou jogos online, recebem o nome de cyberbullying.

A cultura do cancelamento, por sua vez, envolve um julgamento coletivo que pode levar à exposição pública, ao boicote e à exclusão social de uma pessoa. Embora nem todo cancelamento configure cyberbullying, as duas situações podem ocorrer simultaneamente quando há perseguição contínua, ameaças, exposição vexatória ou campanhas coordenadas de ataques.

 

ConceitoComo acontece
CríticaQuestionamento ou avaliação de uma atitude, fala ou comportamento, sem envolver humilhação ou perseguição.
BullyingAgressões repetidas, intencionais e geralmente presenciais.
CyberbullyingAgressões repetidas e intencionais que ocorrem por meios digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens, fóruns ou jogos online.
Cultura do cancelamentoJulgamento coletivo que busca expor, punir ou excluir publicamente uma pessoa, muitas vezes por meio de boicotes e ataques nas redes sociais.

 

 

Por que a cultura do cancelamento afeta tanto os adolescentes?

A adolescência é um período de intensas transformações físicas, emocionais, sociais e cognitivas. Nessa fase, a construção da identidade e a busca por pertencimento tornam a opinião dos pares especialmente importante. Por isso, ser exposto, ridicularizado ou excluído publicamente pode provocar sofrimento intenso.

Comentários, imagens e vídeos podem se espalhar rapidamente, muitas vezes sem contexto, fazendo com que o adolescente sinta que perdeu o controle sobre a própria imagem. Como consequência, alguns jovens passam a evitar se posicionar e participar de conversas por medo de críticas e rejeição.

“Do ponto de vista da saúde mental, é comum surgirem medo de julgamento, sensação de estar sendo observado e preocupação excessiva com a própria imagem. “

Gustavo Estanislau – psiquiatra infantojuvenil e especialista em saúde mental do Ame Sua Mente

Esse sofrimento também pode se manifestar de diferentes formas, incluindo ansiedade, vergonha, isolamento social, queda da autoestima e alterações no sono, no apetite, no humor e no rendimento escolar.

Assim, é importante que famílias e educadores não minimizem a situação. Frases como “não liga para isso” ou “é só sair da internet” costumam aumentar a sensação de solidão. Já o acolhimento e a escuta ajudam o adolescente , a se sentir protegido e menos culpado pelo que está vivendo.

O que os dados mostram?

Embora a cultura do cancelamento seja um fenômeno social difícil de mensurar, pesquisas recentes ajudam a compreender o contexto em que crianças e adolescentes utilizam a internet.

Segundo a TIC Kids Online Brasil 2024, 29% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos relataram ter enfrentado situações ofensivas ou discriminatórias na internet que os deixaram chateados.

Já, dados da PeNSE/IBGE 2026 mostram que 26,1% dos estudantes dizem sentir que ninguém se preocupa com eles.


Veja os resultados da PeNSE/IBGE 2026, no blog:

PeNSE IBGE: 3 em cada 10 adolescentes relatam tristeza frequente

 

No cenário internacional, a Organização Mundial da Saúde informou, em 2024, que 15% dos adolescentes em idade escolar relataram ter sofrido cyberbullying.

Embora essas pesquisas não avaliem diretamente a cultura do cancelamento, elas reforçam que a violência online, a exclusão e a sensação de isolamento fazem parte da realidade de muitos jovens.

Sinais de que o cancelamento pode estar causando sofrimento

Nem sempre o adolescente conta que está sendo alvo de exposição ou ataques nas redes sociais. Muitas vezes, o silêncio está relacionado à vergonha, ao medo de piorar a situação, ao sentimento de culpa ou ao receio de perder o acesso ao celular e às redes.

Por isso, famílias e educadores devem estar atentos a mudanças de comportamento, como:

  • evitar acessar o celular ou demonstrar angústia após usar as redes sociais;
  • apagar perfis, mensagens ou aplicativos de forma repentina;
  • demonstrar medo de ir à escola ou participar de grupos;
  • evitar conversar sobre colegas, comentários ou publicações;
  • apresentar queda no rendimento escolar;
  • mudar o padrão de sono, apetite ou humor;
  • isolar-se de amigos e familiares;
  • demonstrar vergonha intensa ou medo constante de ser julgado.

Esses sinais não indicam, necessariamente, que o adolescente esteja vivenciando uma situação de cancelamento, bullying ou cyberbullying. No entanto, podem revelar sofrimento emocional e não devem ser ignorados. Nesses casos, o primeiro passo é oferecer um espaço seguro de escuta, sem julgamentos ou ameaças.

 

O que diz a legislação brasileira?

Nos últimos anos, o Brasil fortaleceu a proteção de crianças e adolescentes diante da violência presencial e digital. A Lei nº 13.185/2015, por exemplo,  instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, estabelecendo diretrizes para prevenção, identificação e enfrentamento do bullying e do cyberbullying nas escolas.

Em 2024, a Lei nº 14.811/ alterou o Código Penal e passou a tipificar o bullying e o cyberbullying como crimes. A legislação também ampliou medidas de proteção para crianças e adolescentes em ambientes educacionais.

No mesmo ano, entrou em vigor a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, que busca integrar as áreas da educação e da saúde para desenvolver ações de promoção da saúde mental, prevenção de transtornos e cuidado psicossocial no ambiente escolar.

Esses avanços reforçam que a violência entre pares, inclusive no ambiente digital, não deve ser tratada como algo normal ou inevitável. Promover uma cultura de respeito, diálogo e acolhimento é parte fundamental da proteção da saúde mental de crianças e adolescentes.

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O papel da escola na prevenção da cultura do cancelamento

As leis ajudam a combater a violência, mas, sozinhas, não são suficientes para transformar a forma como as pessoas convivem. Prevenir a cultura do cancelamento exige promover respeito, diálogo e responsabilidade tanto no ambiente digital quanto fora dele. Nesse processo, a escola tem um papel fundamental.

Mesmo quando episódios de exposição ou ataques acontecem fora do ambiente escolar, seus efeitos costumam chegar à sala de aula, afetando a convivência, o aprendizado e o bem-estar dos estudantes. Por isso, é importante que as escolas contem com estratégias claras de prevenção, acolhimento e encaminhamento.

Entre as ações que podem fortalecer esse trabalho estão:

  • promover conversas sobre convivência digital, respeito e uso responsável das redes sociais;
  • orientar os estudantes sobre as consequências emocionais e legais de ataques online;
  • diferenciar crítica, responsabilização, humilhação e perseguição;
  • oferecer canais seguros de escuta e acolhimento;
  • apoiar estudantes envolvidos, evitando novas exposições;
  • envolver as famílias de forma cuidadosa;
  • incentivar práticas de responsabilização e reparação, sempre que possível;
  • acionar a rede de proteção quando necessário;
  • desenvolver ações permanentes de promoção da saúde mental e da convivência respeitosa.

Além dos estudantes, os educadores também precisam de apoio. Lidar com conflitos digitais, sofrimento emocional e violência entre pares exige formação, tempo e uma rede de suporte. Por isso, promover o bem-estar na escola é uma responsabilidade compartilhada entre estudantes, famílias, professores, gestores e profissionais da saúde.

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Há 5 anos, o Instituto Ame Sua Mente desenvolve e implementa projetos para promover a saúde mental no ambiente escolar. Além disso, o Instituto dissemina conhecimento científico por meio de conteúdos em diferentes formatos.

 

FAQ – Dúvidas frequentes sobre a cultura do cancelamento

O que é cultura do cancelamento?

A cultura do cancelamento é um fenômeno social em que uma pessoa passa a ser alvo de julgamento público, geralmente nas redes sociais, podendo sofrer ataques, boicote ou exclusão após uma fala, atitude ou comportamento considerado inadequado.

Cultura do cancelamento é crime?

A cultura do cancelamento, por si só, não é um crime previsto na legislação brasileira. No entanto, algumas práticas associadas a ela podem ter consequências legais, como ameaças, injúria, difamação, perseguição, exposição indevida e cyberbullying.

Qual é a diferença entre crítica e cancelamento?

A crítica busca questionar uma atitude, comportamento ou ideia e pode favorecer a reflexão e o diálogo. Já o cancelamento costuma envolver exposição pública, ataques coletivos e tentativas de exclusão social, muitas vezes sem abertura para diálogo ou possibilidade de reparação.

Cultura do cancelamento afeta a saúde mental?

Sim. A exposição pública, os ataques em grupo e o medo constante de julgamento podem favorecer ansiedade, vergonha, isolamento social, queda da autoestima e sofrimento emocional, especialmente entre adolescentes e jovens.

Cultura do cancelamento é a mesma coisa que cyberbullying?

Não. A cultura do cancelamento envolve um julgamento coletivo que pode levar à exposição pública, ao boicote e à exclusão social. Já o cyberbullying consiste em agressões repetidas praticadas por meios digitais. Apesar das diferenças, os dois fenômenos podem se sobrepor quando há perseguição, humilhação ou ataques contínuos.

O que fazer se um adolescente está sendo cancelado nas redes?

O primeiro passo é acolher o adolescente, escutá-lo sem julgamentos e evitar culpabilizá-lo pela situação. Também é importante guardar evidências, denunciar conteúdos ofensivos, evitar ampliar a exposição, comunicar a escola quando houver estudantes envolvidos e buscar apoio psicológico ou psiquiátrico se o sofrimento for intenso ou persistente.

 

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