Jogos eletrônicos afetam a saúde mental? Entenda os riscos e como equilibrar

Atualmente, os jogos eletrônicos fazem parte da rotina de crianças, adolescentes e adultos. Estão no celular, no computador, no videogame, no tablet e no console portátil. Diante desse cenário, é comum que pais, educadores e profissionais de saúde se perguntem: afinal, os jogos eletrônicos fazem mal à saúde mental?

A resposta não é simples. Na prática, o impacto depende de fatores como o tipo de jogo, o tempo de uso, a situação emocional e os objetivos de quem joga. Em muitos casos, os games funcionam como lazer, socialização e alívio do estresse. Por outro lado, quando o uso se torna excessivo — ou passa a ser a única forma de lidar com emoções difíceis — o risco de sofrimento psíquico aumenta de maneira significativa.

A seguir, confira o que a ciência já sabe sobre a relação entre jogos eletrônicos e saúde mental, quando o uso se torna problemático e quais são os caminhos possíveis para encontrar equilíbrio.

 

Jogos eletrônicos e saúde mental: por que o tema importa?

Primeiramente, é importante entender o cenário. Nas últimas décadas, o tempo de tela cresceu de forma expressiva e, nesse processo, os jogos eletrônicos passaram a ocupar uma parte relevante dessa exposição, principalmente entre adolescentes.

Nesse contexto, relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o uso intenso de telas – incluindo jogos – está associado à pior qualidade do sono, ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão, e ao maior risco de dificuldades emocionais. 

No entanto, as evidências mostram que o problema não está apenas na quantidade de horas jogadas. Na prática, o impacto depende, sobretudo, do padrão de uso. Normalmente, o risco cresce quando o jogo passa a substituir atividades como, por exemplo, sono, estudo, trabalho, convivência familiar. Além disso, aumenta quando se torna a principal estratégia para lidar com tristeza, ansiedade ou tédio.

Ao mesmo tempo, a produção científica sobre jogos eletrônicos e saúde mental aponta um cenário mais complexo. Revisões sistemáticas indicam que o uso moderado e equilibrado tende a ter efeitos neutros ou até positivos, enquanto o uso excessivo ou compulsivo se associa à piora do bem-estar psicológico e maior risco de sintomas emocionais.

Do mesmo modo, alguns estudos destacam benefícios em contextos específicos, como o desenvolvimento de habilidades cognitivas, a sensação de pertencimento em comunidades online e o uso terapêutico supervisionado.

Em resumo: os jogos eletrônicos não são, por si só, vilões nem soluções. De acordo com especialistas, a discussão deve ir além da simples contagem de horas e considerar a qualidade do conteúdo, a realidade de uso e a responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas e sociedade.

Quando o jogo vira problema?

A Organização Mundial da Saúde reconhece o gaming disorder (transtorno por jogos eletrônicos) na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Conforme essa definição, o transtorno se caracteriza por três elementos centrais:

  • Perda de controle: ou seja, dificuldade para controlar o início, a duração, a frequência ou o fim das sessões;
  • Prioridade crescente dada aos jogos: ocorre quando jogar passa na frente de outras atividades importantes (escola, trabalho, sono, alimentação, relações presenciais);
  • Continuidade do comportamento apesar dos prejuízos:  mesmo percebendo as consequências negativas, a pessoa continua ou intensifica o uso.

Ainda assim, para que se possa falar em transtorno, esse padrão precisa estar presente, em geral, por pelo menos 12 meses e causar danos significativos na vida escolar, profissional, social ou familiar.

Isso não significa que gostar muito de videogame seja, automaticamente, um problema. Mas, quanto mais sinais de perda de controle e impacto negativo aparecem, maior é a necessidade de atenção e, se necessário, de avaliação profissional.

 

Principais riscos dos jogos eletrônicos para a saúde mental

A seguir, detalhamos alguns dos principais riscos associados aos jogos eletrônicos e saúde mental, especialmente em crianças e adolescentes — embora muitos deles também se apliquem aos adultos.

1. Uso excessivo e desregulado

Em primeiro lugar, o risco mais frequente envolve o tempo de jogo. Quando a pessoa passa muitas horas por dia jogando, é comum que ocorram:

  • redução do tempo de sono;

  • cansaço frequente e irritabilidade;

  • queda no desempenho escolar ou profissional;

  • diminuição da prática da atividade física;

  • redução do convívio presencial com amigos e família.

Neste sentido, estudos com adolescentes reforçam que esse padrão de uso se associa a mais sintomas de estresse, ansiedade, depressão e dificuldades de atenção.

Além disso, pesquisas recentes indicam que não é apenas a quantidade de horas que importa. Ou seja, o uso compulsivo — marcado por desconforto intenso ao ficar longe do jogo e dificuldade de interromper a atividade, mesmo diante de impactos negativos — eleva significativamente o risco de sofrimento psíquico. Em casos mais graves, pode estar relacionado a pensamentos e comportamentos suicidas.

 

2. Sono prejudicado e irritabilidade

Jogos online competitivos costumam acontecer à noite, quando mais pessoas estão conectadas. Porém, esse hábito mantém o cérebro em estado de alerta, atrasa o horário de dormir e compromete a qualidade do sono. Por essa razão, a Academia Americana de Pediatria recomenda que as famílias criem um plano de mídia com regras específicas para o uso de telas no período noturno.

De acordo com diretrizes de pediatria e saúde pública, crianças e adolescentes devem:

  • dormir o número de horas adequado à idade;

  • evitar telas pelo menos uma hora antes de dormir;

  • não manter celulares, videogames ou consoles ligados no quarto durante a noite.

 

3. Conteúdo violento, hostil ou inadequado

Outro ponto relevante é o tipo de conteúdo acessado. Revisões da Associação Americana de Psicologia (APA) sinalizam uma relação pequena, porém consistente, entre exposição a jogos violentos e aumento de comportamentos agressivos.

Além da violência explícita, muitos jogos online apresentam:

  • linguagem agressiva em chats;

  • humilhações e xingamentos;

  • práticas de cyberbullying;

  • sexualização excessiva de personagens.

Como resultado, a exposição prolongada a esse ambiente pode afetar a autoestima, naturalizar formas de violência e aumentar a impulsividade.

Sob essa perspectiva, o tema se conecta ao debate mais amplo sobre cyberbullying e cultura do cancelamento, que impactam fortemente a saúde mental de crianças e adolescentes nas redes e nos jogos online.

Leia mais sobre o assunto no blog abaixo.

Cultura do cancelamento e cyberbullying

 

4. Isolamento social e fuga da realidade

Da mesma forma, quando os jogos se tornam o principal — ou único —  modo de lidar com emoções difíceis, como tristeza, solidão, ansiedade ou frustração, cresce o risco de isolamento social e de sofrimento silencioso.

Estudos indicam que, à medida que o jogo substitui as relações presenciais, tende a aumentar a sensação de solidão e os sintomas depressivos, sobretudo quando o jogador já se sente pouco aceito no ambiente escolar ou familiar. Por isso, é importante observar mudanças no padrão de interação social.

Quando o uso de jogos merece atenção?

A seguir, veja alguns indicadores que ajudam a diferenciar o uso saudável do uso problemático de jogos eletrônicos:

Dimensão da vidaUso mais equilibradoUso problemático / de risco
Tempo de jogoAlgumas horas por semana, com pausas e horários combinados.Muitas horas por dia, principalmente à noite
SonoDorme no horário e acorda descansado.Dorme muito tarde, vive cansado.
Escola/trabalhoCumpre tarefas e mantém o desempenho.Rendimento comprometido, faltas e atrasos frequentes.
Relações presenciaisMantém contato com família e amigos fora do jogo.Prefere jogar, evitando encontros presenciais.
HumorUsa o jogo para relaxar, mas tem outras fontes de prazer.Fica irritado ou agressivo quando não pode jogar.
Outras atividadesTem hobbies variados. Perde interesse em quase tudo que não o jogo.
Reação a limitesReclama, no entanto respeita os combinados.Explode, mente, quebra objetos para continuar jogando

Jogos eletrônicos também podem fazer bem?

Apesar dos riscos já discutidos, é importante destacar que jogar não é, por definição, algo negativo. Em muitos contextos, os jogos eletrônicos podem ter efeitos positivos, desde que utilizados com moderação e inseridos em uma rotina equilibrada.

De acordo com pesquisas recentes, o possíveis benefícios incluem:

  • estímulo a habilidades cognitivas, como atenção e planejamento;

  • sensação de engajamento e prazer;

  • socialização em jogos cooperativos;

  • incentivo à atividade física em jogos que envolvem movimento corporal;

  • uso em intervenções terapêuticas específicas, por exemplo,  em programas de reabilitação cognitiva ou manejo de TDAH. 

Portanto, o objetivo não é demonizar os jogos, mas aprender a usá-los com equilíbrio, reduzindo riscos e valorizando seus aspectos positivos.

 

Crianças, adolescentes e adultos: o que muda em cada fase?

Crianças

Na infância, o cérebro está em intensa formação. Por esse motivo, recomenda-se priorizar brincadeiras ao ar livre, interação presencial e sono adequado. Nessa fase, os jogos eletrônicos devem ocupar um espaço pequeno da rotina, com conteúdo apropriado à idade e, sempre que possível, com acompanhamento de adultos.

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Adolescentes

Já na adolescência, os jogos podem representar um espaço de pertencimento e construção de identidade. Ao mesmo tempo, é um período caracterizado por maior vulnerabilidade a comportamentos de risco, privação de sono e sensibilidade ampliada a críticas, bullying e exclusão. Nesse sentido, diálogo aberto, combinados familiares e atenção aos sinais de sofrimento são essenciais.

 

Adultos

Por fim, os adultos também podem desenvolver gaming disorder, especialmente em situações de estresse crônico, ansiedade ou depressão. Ainda assim, muitos utilizam os jogos de forma equilibrada, como um hobby entre outros. Desta forma, o ponto central aqui é observar se o jogo está prejudicando o desempenho profissional, as relações interpessoais ou o cuidado com a própria saúde.

 

Como equilibrar jogos eletrônicos e saúde mental na prática

Após entender riscos e potenciais benefícios, vem a pergunta que mais interessa no dia a dia: o que fazer para encontrar equilíbrio?.

 

1. Para Famílias

Em vez de focar apenas em proibições — o que tende a gerar mais conflitos — vale apostar em três pilares: conhecer, combinar e acompanhar.

Conhecer o universo de jogos
Em primeiro lugar, é essencial conhecer o universo de jogos da criança ou do adolescente. Pergunte que jogos gosta, com quem costuma jogar e o que considera divertido naquele ambiente. Além disso, sempre que possível, participe das partidas. Assim, você fortalece o vínculo, facilita o diálogo e consegue avaliar melhor o conteúdo e as interações.

 

Combinar regras claras e realistas 
Além disso, estabeleça combinados claros e realistas. Definam, em conjunto, horários de jogo — por exemplo, após a lição de casa —, o tempo aproximado por dia e as diferenças entre semana e fim de semana. Também é importante estabelecer um horário limite à noite para proteger o sono. 

 

Acompanhar o comportamento e o clima emocional 
Ao mesmo tempo, é fundamental acompanhar o comportamento do jogador. Observe possíveis mudanças de humor, queda brusca no rendimento escolar, perda de interesse em outras atividades ou explosões de raiva relacionadas ao game. Pergunte como são as interações online e se a criança ou o adolescente tem sofrido xingamentos, humilhações ou exclusão nos jogos.

 

Vale lembrar que o exemplo dos adultos pesa muito. Se os responsáveis passam todo o tempo livre no celular ou em jogos, a mensagem implícita é que “tela o tempo todo é normal”. Por isso, o equilíbrio começa também pelo comportamento dos próprios cuidadores.

 

2. Para escolas e educadores

As escolas também podem atuar como aliadas — e não como inimigas — dos jogos eletrônicos. Ou seja, é possível incorporar o tema de forma educativa e preventiva.

Por exemplo, as instituições devem incluir jogos, telas e saúde mental em projetos pedagógicos. Do mesmo modo, cabe às escolas discutir com os estudantes as vantagens e os riscos do universo digital, bem como trabalhar temáticas como cyberbullying, respeito online e cultura do cancelamento.

As escolas ainda podem orientar as famílias sobre sinais de alerta e canais de ajuda disponíveis. Como resultado, fortalecem a rede de cuidado compartilhada.

 

3. Para quem joga 

Por outro lado, se você é a pessoa que joga, vale usar algumas perguntas como “termômetro” da relação entre o uso de jogos eletrônicos e sua saúde mental:

  • Consigo parar de jogar na hora combinada, mesmo quando estou empolgado?

  • Tenho dormido o suficiente ou estou sempre virando a noite?

  • Ainda sinto prazer em outras atividades, como conversar com amigos, sair, praticar esportes ou assistir a um filme?

  • Minhas responsabilidades (estudo, trabalho, família) continuam em dia?

  • Fico muito irritado quando alguém me pede para desligar o jogo?

 

Se muitas respostas indicarem dificuldade de controle, talvez seja o momento de fazer alguns ajustes. Nesse caso, você pode:

  • Estabelecer limites de tempo mais claros;

  • Programar pausas a cada 45 a 60 minutos;

  • Variar os tipos de jogo, (não ficar só em títulos competitivos ou muito estressantes);

  • Resgatar hobbies antigos e experimentar novas atividades fora das telas;

  • Conversar com alguém de confiança sobre o que está acontecendo.

Agora, quando reduzir o tempo de jogo se torna muito difícil ou surgem sinais claros de sofrimento, buscar ajuda profissional é um passo fundamental de cuidado e prevenção.

 

Estratégias simples para um uso saudável de jogos

Situação frequenteEstratégia práticaBenefício esperado
Dormir muito tarde por causa do jogo.Definir horário limite e tirar telas do quarto.Melhora do humor, da atenção e qualidade do sono.
Brigas diárias por conta do game.Escrever combinados e revisá-los juntos.Redução de conflitos, além de maior previsibilidade.
Só sentir prazer jogando.Resgatar hobbies antigos e experimentar coisas novas.Diversificar fontes de bem-estar.
Ficar muito irritado quando o jogo é interrompido.Programar pausas e avisar com antecedência o fim da sessão.Menos explosões de raiva e maior sensação de controle.
Medo de xingamentos e cyberbullying.Ajustar chats, bloquear usuários tóxicos, falar com adultos de confiançaProteção da autoestima.
Desconfiar de uso problemático.Monitorar rotina, humor e buscar avaliação profissionalIntervenção precoce, evitando agravamento do quadro

Quando buscar ajuda profissional?

Por fim, é importante considerar uma avaliação com um profissional de saúde mental quando, por exemplo:

  • há sinais claros de gaming disorder;
  • o jogo se torna quase a única atividade prazerosa;
  • aparecem sintomas persistentes de tristeza, irritabilidade, ansiedade ou desesperança;
  • o sono está muito prejudicado, com impacto na escola, no trabalho ou nas relações;
  • há conflitos familiares intensos e constantes por causa de jogos;
  • surgem pensamentos de morte, autoagressão ou frases como “minha vida só presta no jogo”.

 

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