Ansiedade climática: como a crise global afeta a saúde mental dos jovens

A crise climática já não fica só nos relatórios. Atualmente, ela atravessa conversas em casa, aparece na escola e, muitas vezes, pesa no peito de adolescentes e jovens, sobretudo quando o futuro parece incerto. Nesse cenário, cresce a ecoansiedade, também chamada de ansiedade climática — um sofrimento que pode se traduzir em medo, culpa, raiva, tristeza e sensação de impotência diante das mudanças no planeta.

Ainda que a preocupação com o planeta seja compreensível, ela pode sair do alerta saudável e virar sobrecarga. Assim, quando a inquietação começa a atrapalhar sono, estudos, relações e bem-estar, o assunto torna-se também uma questão de saúde mental.

O que é ansiedade climática

A UNICEF descreve “climate anxiety como sofrimento emocional, mental ou físico diante de mudanças perigosas no clima e à percepção de ameaça ao futuro. Em outras palavras, surge quando a pessoa percebe riscos ambientais e sente que não tem controle suficiente para se proteger ou alterar esse cenário.

Com isso, podem aparecer:

  • pensamentos repetitivos sobre catástrofes;

  • sensação de injustiça;

  • medo constante;

  • dificuldade de imaginar o futuro com segurança.

Neste sentido, a OMS reconhece que as mudanças climáticas impactam a saúde mental e recomenda integrar apoio psicossocial às respostas para a crise climática.

 

Crise climática: por que ela pesa tanto na adolescência

A adolescência é um período de intensas transformações. Ao longo desta fase, identidade, pertencimento e autonomia ainda estão em construção, enquanto o cérebro continua amadurecendo áreas ligadas à regulação emocional e ao planejamento do futuro. Nesse contexto, quando adolescentes recebem repetidamente mensagens de que o futuro pode estar ameaçado, o organismo tende a reagir com maior estado de alerta. Como consequência, sentimentos de ansiedade, insegurança e até desesperança podem surgir.

Ao mesmo tempo, as redes sociais intensificam a sensação de urgência. Notícias chegam em ritmo acelerado, muitas vezes sem contexto nem pausa. No entanto, adolescentes têm pouco poder sobre decisões estruturais globais, o que pode ampliar a sensação de impotência. Quando essa combinação se prolonga, o sofrimento pode se tornar persistente.

Ansiedade climática: dados de alerta 

Um estudo global publicado na The Lancet Planetary Health (2021) — considerado um dos maiores levantamentos sobre o tema — investigou 10 mil jovens de 16 a 25 anos em 10 países (incluindo o Brasil). Os resultados indicam que a ansiedade climática está associada a sofrimento significativo e impacto no funcionamento diário, além de pior percepção sobre respostas governamentais.

Entre os participantes:

  • 59% estavam muito ou extremamente preocupados com as mudanças climáticas;

  • 45% disseram que sentimentos sobre o clima afetavam o funcionamento diário;

  • 75% consideravam o futuro assustador;

  • 55% acreditavam que teriam menos oportunidades que seus pais;

  • 39% não tinham certeza se desejavam ter filhos.

Os dados sugerem que o impacto vai além da preocupação pontual — ele pode atingir projeto de vida e perspectiva de futuro.

Ecoansiedade em jovens: sinais comuns e sinais de alerta

Nem toda preocupação é adoecimento. Mas alguns sinais podem indicar que a ecoansiedade está ultrapassando um limite saudável e prejudicando a vida do adolescente. Estudos com crianças e jovens indicam que emoções como tristeza, raiva e culpa são comuns na ansiedade climática, e podem afetar o funcionamento diário. Além disso, outros sinais são percebidos:

  • Insônia, sono agitado ou pesadelos;

  • Dor de cabeça, dor no estômago e tensão muscular;

  • Cansaço persistente, mesmo com descanso;

  • Taquicardia ou sensação de aperto no peito em momentos de gatilho;

  • Ruminação: pensamentos repetitivos sobre colapso, catástrofe e futuro;

  • Dificuldade de concentração e queda no rendimento;

  • Catastrofização: imaginar sempre o pior cenário;

  • Desânimo com planos de longo prazo (estudar, trabalhar, construir projetos).

  • Passar horas rolando notícias (doomscrolling), mesmo se sentindo pior depois;

  • Reduzir atividades de lazer e convívio;

  • Se isolar ou perder interesse em atividades que antes faziam sentido.

Nessas situações, procurar apoio profissional é um passo protetivo, especialmente se os sinais persistirem por semanas, aumentarem de intensidade ou causarem prejuízo importante.

Quando a preocupação vira paralisia

Em alguns casos, a ansiedade climática deixa de ser mobilizadora e passa a gerar paralisia. Isso ocorre porque o cérebro humano é programado para reagir a ameaças. Quando adolescentes são expostos repetidamente a imagens de enchentes, queimadas, ondas de calor e outros desastres ambientais, o sistema de alerta pode permanecer ativado, criando a sensação de que o perigo é imediato e constante.

Assim, o jovem pode começar a sentir que “nada adianta”, ter dificuldade de imaginar a própria vida adulta ou até abandonar sonhos e planos. Embora algumas pessoas interpretem isso como exagero, para o jovem a experiência é real: o corpo reage como se o futuro estivesse concretamente ameaçado.

Por outro lado, a esperança não precisa ser uma ideia abstrata. Ela pode ser construída no cotidiano. Por exemplo, rotina, vínculo e pertencimento ajudam a restaurar previsibilidade e sensação de segurança.

Como falar de crise climática com adolescentes 

Validar sem minimizar – sem fatalismo
Em vez de dizer “isso é bobagem”, reconheça a emoção do adolescente com frases como “Eu entendo que isso dá medo” ou “Faz sentido você se sentir assim”. Também é importante evitar discursos apocalípticos, já que mensagens muito alarmistas aumentam a sensação de inevitabilidade e desamparo. Em geral, a postura mais eficaz é aquela que combina realismo e acolhimento: reconhecer a gravidade do problema e, ainda assim, reforçar caminhos possíveis de cuidado e ação.


Ajustar a dose de informação
Informação é importante, porém precisa de limite. Por isso, vale combinar com o adolescente horários definidos para se informar, incluir pausas digitais — especialmente antes de dormir — bem como priorizar fontes confiáveis e conteúdos explicativos em lugar de apenas imagens impactantes.


Trocar culpa por responsabilidade compartilhada

A crise climática não foi causada por uma única pessoa. Só para ilustrar, quando o jovem sente que precisa resolver tudo sozinho, a ansiedade e a culpa tendem a aumentar. Por outro lado, um caminho mais saudável é reforçar que a responsabilidade é compartilhada. Quando o cuidado é coletivo, a sobrecarga diminui e o senso de pertencimento se fortalece.

Estresse ambiental: como a família pode acolher no dia a dia

Pequenas escolhas cotidianas produzem grande efeito. Em primeiro lugar, a rotina protege. Isso porque, o cérebro cansado fica mais reativo, enquanto a previsibilidade reduz a sensação de caos.

Entre algumas ações simples listadas pela UNICEF estão:

  • manter horários regulares de sono, refeições e descanso;

  • criar momentos curtos de conversa, sem interrogatório;

  • validar emoções sem pressa de resolver tudo;

  • estabelecer limites de tela, especialmente em períodos de maior exposição a desastres.

Escola: como abordar crise climática e saúde mental com segurança

A escola ocupa um espaço central na vida dos jovens. Dependendo da abordagem, pode funcionar como fator de proteção — ou como gatilho adicional. A UNICEF lista algumas práticas que, geralmente, ajudam:

  • projetos coletivos (horta, ciência cidadã, comunicação, cidadania);

  • rodas de conversa com mediação e regras de respeito;

  • educação climática com foco em soluções e pensamento crítico;

  • espaço de escuta para emoções, não apenas para conteúdo.

Ao mesmo tempo, cuidar dos estudantes também envolve cuidar dos adultos. Professores sobrecarregados têm mais dificuldade de acolher emoções complexas no cotidiano escolar. Por isso, apoiar educadores é parte essencial da estratégia de cuidado.

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Crise climática e saúde mental infantil, o futuro em alerta

Em muitos casos, a ecoansiedade se mistura a experiências concretas de ameaça e perda. No documentário “Infância, o Fututo em Alerta”, produzido pela TV Cultura, o psiquiatra da infância e adolescência e especialista do Instituto Ame Sua Mente, Gustavo Estanislau, explica como eventos climáticos extremos e a sensação contínua de insegurança podem impactar o sono, as emoções e a percepção de proteção de crianças e adolescentes.

Além disso, ele destaca que experiências marcantes — como enchentes que atingem a própria casa — podem manter o organismo em estado de alerta por um período prolongado. Nesses casos, medos intensos, hipervigilância e reações exacerbadas diante de situações que lembram o evento tornam-se mais frequentes. Em algumas situações, esse impacto ainda pode contribuir para o desenvolvimento de trauma psicológico e até de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Assista ao documentário completo:

Estratégias para lidar com a ansiedade climática: do alívio imediato à ação possível

A ansiedade climática em jovens não pede silêncio. Pelo contrário, ela precisa de cuidado, vínculo e um plano viável – em outras palavras, um plano possível, mesmo sem ser perfeito.

Na prática, ele pode ser construído aos poucos, com limites claros e apoio consistente. De acordo com estudos internacionais e o relatório Mental Health and Our Changing Climate, da American Psychological Association (APA) com a ecoAmerica, algumas estratégias podem ajudar.

Alívio imediato (quando a ansiedade está forte)

Quando a ansiedade aumenta, o corpo entra em estado de alerta. Assim, o primeiro passo é reduzir essa ativação com ações simples e fáceis de repetir:

  • Respirar lentamente por 2–3 minutos (inspirar pelo nariz e soltar devagar);

  • Fazer uma pausa nas telas, a fim de diminuir estímulos emocionais;

  • Beber água e fazer um lanche leve, que podem ajudar a regular o corpo;

  • Mover o corpo por alguns minutos (caminhada leve, alongamento), pois ajuda a reduzir a tensão.

Em momentos de pico, discutir soluções gigantes costuma aumentar a ansiedade. Nessas horas, vale priorizar o básico e deixar decisões maiores para quando a mente estiver mais calma.

Proteção no dia a dia 

Depois do alívio imediato, entra a prevenção. Ou seja, pequenas rotinas diminuem a chance da ecoansiedade virar uma bola de neve:

  • Sono em horário regular, pois o cérebro cansado fica mais reativo;

  • Alternância entre informação e pausa, de modo que a mente não fique em sobrecarga;

  • Lazer e relações sociais, já que pertencimento protege a saúde mental;

  • Limites para discussões online, sobretudo quando elas aumentam raiva e impotência.

Ação possível 

A prática ajuda porque devolve a sensação de controle. Entretanto, ação sem descanso pode virar exaustão, especialmente entre adolescentes muito engajados. Por essa razão, a meta é escolher um caminho sustentável. Algumas iniciativas podem ajudar:

  • reduzir desperdício em casa, principalmente de água e energia;

  • criar um acordo familiar de consumo mais consciente;

  • participar de projetos da escola (por exemplo, horta, ciência, comunicação, cidadania);

  • montar um grupo de conversa com colegas, mediado por um adulto;

  • apoiar ações locais do bairro, ainda que pontuais.

  • transformar ansiedade em propósito com metas possíveis;

  • celebrar progressos, porque reconhecimento sustenta motivação.

Desse modo, a ansiedade climática deixa de ser só peso e pode virar também direção — sem romantizar sofrimento e sem exigir heroísmo.

Quando procurar ajuda profissional

Às vezes, a ansiedade climática em adolescentes ultrapassa a preocupação e vira sofrimento persistente.  Por isso, importante buscar apoio profissional quando houver:

  • sofrimento intenso por semanas;

  • crises frequentes de ansiedade;

  • isolamento importante;

  • queda significativa no rendimento;

  • alterações marcantes de sono ou alimentação.

 

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