
Quando pensamos em saúde mental no trabalho, o Brasil enfrenta um momento complicado. Nos últimos anos, o aumento do burnout e o crescimento dos afastamento por transtornos mentais revelam um cenário em que o sofrimento psíquico deixou de ser algo pontual para se tornar um problema de saúde pública. Nesse contexto, pais, educadores, profissionais de saúde, gestores e trabalhadores precisam, cada vez mais, compreender o que está acontecendo para agir de forma preventiva e acolhedora.
Além disso, o número de pessoas que se afastam do emprego por questões emocionais cresceu de forma acelerada. Atrás de cada licença, há uma história de exaustão, sobrecarga, medo, culpa e, muitas vezes, sensação de fracasso. Por isso, falar sobre burnout e afastamento por transtornos mentais não é apenas discutir estatísticas, mas também reconhecer que o atual modelo de trabalho tem cobrado um preço alto demais de muitas pessoas.
O avanço dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil
Diversas fontes apontam que o Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais. Ao longo de um único ano, foram centenas de milhares de licenças, com crescimento superior a 60% em relação ao período anterior em algumas bases de dados. Neste cenário, os diagnósticos mais frequentes incluem transtornos de ansiedade, depressão e quadros relacionados ao estresse intenso e prolongado.
Esse aumento não acontece do nada. Ao contrário, ele dialoga com um contexto de instabilidade econômica, mudanças nas formas de organização do trabalho, pressão por resultados e medo de perder o emprego, fatores que, somados a desafios pessoais e familiares, ampliam o sofrimento emocional. Além disso, a pandemia de COVID-19 deixou marcas profundas, que ainda repercutem no cotidiano da sociedade.
O ambiente profissional, muitas vezes, é atravessado por jornadas estendidas, metas difíceis de cumprir, comunicação pouco clara e falta de apoio. A combinação desses fatores contribui para que o sofrimento psíquico se acumule em silêncio, até se tornar incapacitante. Quando isso acontece, o afastamento do trabalho passa a ser uma consequência quase inevitável.
Embora nem sempre apareça como diagnóstico principal, o burnout está fortemente presente nesse processo. Geralmente, o que começa como desgaste intenso, dificuldade de concentração e sensação de estar “no limite” evolui para ansiedade, depressão ou outros transtornos. Assim, burnout e afastamento por transtornos mentais se entrelaçam, mesmo quando o nome “burnout” não aparece no atestado.
O que é burnout hoje e como ele afeta a vida de quem trabalha
A síndrome de burnout é um estado de exaustão emocional relacionado ao trabalho, que vai muito além do cansaço do dia a dia. Ela envolve três componentes principais: esgotamento físico e mental, distanciamento emocional das atividades e percepção de baixa realização pessoal. Em outras palavras, é como se nenhum esforço valesse a pena.
Inicialmente, os sinais podem ser sutis: perda de entusiasmo, irritabilidade, dificuldade de relaxar após o expediente, sensação de estar sempre devendo algo. Com o tempo, corpo e mente começam a reagir com mais intensidade. A pessoa pode ter alterações de sono, dores frequentes, queda de imunidade, crises de choro e sensação de vazio.
Alguns sinais de alerta incluem:
- Cansaço extremo que não melhora, mesmo com descanso pontual;
- Sensação de estar “no automático”;
- Irritabilidade frequente, impaciência e explosões emocionais;
- Dificuldade de concentração e tomada de decisões;
- Sentimento persistente de inadequação ou fracasso.
É importante lembrar que o burnout não é sinônimo de fraqueza, preguiça ou falta de vocação. Na verdade, trata-se de uma resposta ao estresse crônico e mal gerenciado em contextos de trabalho que muitas vezes exigem demais e oferecem pouco suporte. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional e o relaciona diretamente à qualidade do ambiente e da organização do trabalho.
Como burnout e afastamento por transtornos mentais se conectam
Quando observamos os afastamentos por transtornos mentais, fica claro que saúde emocional e trabalho estão profundamente ligados. É raro que alguém adoeça de um dia para o outro. No geral, há um caminho silencioso de desgaste contínuo, com sinais ignorados até que corpo e mente peçam socorro.
O burnout pode ser entendido como um desses estágios críticos. Em muitos casos, ele funciona como:
- Porta de entrada para depressão e ansiedade;
- Resultado de anos de exposição a ambientes adoecedores;
- Fator que aumenta o risco de afastamento quando não há intervenção precoce.
Mesmo quando o diagnóstico formal é “episódio depressivo” ou “transtorno de ansiedade generalizada”, é comum que a raiz do adoecimento esteja na combinação de sobrecarga, falta de reconhecimento, conflitos no trabalho e ausência de limites claros entre vida pessoal e profissional. Por isso, burnout e afastamento por transtornos mentais fazem parte de um mesmo cenário, em que o sofrimento emocional aparece como resposta a contextos difíceis e, muitas vezes, invisibilizados.
Além disso, a forma como as organizações lidam com a saúde mental faz diferença. Ambientes que tratam pedidos de ajuda como “frescura”, tendem a atrasar o cuidado, até que a pessoa procure ajuda. Quando o cuidado só chega no momento em que o afastamento é inevitável, o impacto tanto sobre a pessoa quanto sobre o sistema torna-se muito maior.
O papel de trabalhadores, famílias, escolas e profissionais de saúde
A prevenção do burnout depende de uma rede ampla de cuidado. Portanto, não basta pedir que o indivíduo “se cuide mais” se o contexto não oferece condições mínimas de proteção e apoio. Por outro lado, cuidar da própria saúde emocional também envolve escolhas individuais possíveis dentro da realidade de cada um.
Para quem trabalha, algumas atitudes podem ajudar a reduzir o risco de adoecimento:
- Levar a sério sinais de alerta como, por exemplo, esgotamento constante, alterações importantes no sono, irritabilidade ou perda de prazer em atividades que antes eram significativas;
- Estabelecer limites de horário – dentro do possível;
- Reservar momentos reais de descanso, com desconexão de e-mails e mensagens de trabalho;
- Buscar apoio em rede, conversando com pessoas de confiança, grupos de apoio ou profissionais de saúde mental.
Pais, responsáveis e educadores também exercem papel essencial. Especialmente, quando adolescentes e jovens adultos ingressam no mercado de trabalho ou conciliam estudo e emprego. Nesses casos, apoio emocional, incentivo ao autocuidado e abertura para o diálogo fazem diferença.
Profissionais da saúde, por sua vez, estão na linha de frente da identificação e cuidado de pessoas em sofrimento. Uma abordagem centrada no indivíduo, que considera contexto de vida, condições de trabalho e rede de apoio, é essencial. Em muitos casos, o afastamento temporário é necessário, mas ele deve ser acompanhado de psicoterapia e, quando necessário, de acompanhamento psiquiátrico, além de orientações para um retorno gradual, sempre que possível.
O papel das empresas e instituições na prevenção do burnout
Embora o foco recaia, muitas vezes, sobre o indivíduo, as organizações têm enorme responsabilidade na prevenção do burnout. Ambientes mais saudáveis incluem:
- Metas e cargas de trabalho compatíveis com o tempo disponível e os recursos oferecidos;
- Lideranças capacitadas para lidar com conflitos, dar feedback respeitoso e acolher dificuldades;
- Espaços seguros para falar sobre sofrimento;
- Políticas claras de promoção da saúde mental, com acesso a apoio psicológico ou programas internos de bem-estar.
Além disso, é importante considerar os riscos psicossociais como parte da segurança do trabalho, do mesmo modo que os riscos físicos ou ergonômicos. Quando a organização assume a saúde mental como prioridade, ela não apenas reduz o adoecimento, como também fortalece o engajamento, a produtividade sustentável e o senso de pertencimento.
Para empresas e gestores que desejam avançar nesse tema, é útil buscar materiais de referência em instituições confiáveis, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), associações de psiquiatria e psicologia e produções científicas disponíveis em bases como SciELO. Esses conteúdos ajudam a embasar políticas internas e ações de cuidado mais efetivas.
Um olhar para os dados: síntese do cenário brasileiro
A seguir, um quadro-resumo que ajuda a visualizar a relação entre burnout e afastamento por transtornos mentais:
| Indicador | Situação recente no Brasil* |
| Afastamentos por transtornos mentais e comportamentais | Centenas de milhares de casos em um único ano |
| Crescimento em relação ao ano anterior | Aumento superior a 60% em algumas bases |
| Diagnósticos mais frequentes | Transtornos de ansiedade, episódios depressivos, estresse grave |
| Burnout como diagnóstico formal | Menor número de registros, com provável subnotificação |
| Impactos associados | Perda de renda, queda de produtividade, sofrimento familiar, sobrecarga dos sistemas de saúde |
*Os dados variam conforme a fonte, mas diferentes levantamentos apontam para aumento contínuo dos afastamentos ligados à saúde mental.
Em síntese, os dados mostram que o burnout, mesmo subnotificado, está no centro do aumento dos afastamentos por transtornos mentais. Assim, compreender o fenômeno é essencial para construir políticas mais humanas.
Caminhos possíveis: cuidado, prevenção e apoio mútuo
Diante desse cenário, fica claro que não há solução simples. Ainda assim, algumas ações podem ser úteis.
No nível individual, reconhecer o próprio sofrimento é um passo importante. Afinal, perceber que algo não está bem, pedir ajuda e aceitar limites exige coragem. Desta forma, esse movimento inicial abre espaço para formas mais efetivas de cuidado.
Já no contexto familiar e comunitário, as redes de apoio são fundamentais. Nesses ambientes, conversar, ser acolhido e receber ajuda prática fazem diferença concreta na recuperação. Além disso, o suporte cotidiano reduz o sentimento de isolamento e fortalece a retomada do bem-estar.
No contexto escolar, por sua vez, a inclusão de temas de saúde mental no currículo e o desenvolvimento de projetos — como, por exemplo, o Ame Sua Mente na Escola — contribuem para preparar as futuras gerações.
Por fim, nas empresas e instituições, é crucial abandonar a ideia de que a saúde mental é responsabilidade exclusiva do indivíduo. Nesse sentido, a prevenção do burnout passa por repensar modelos de gestão, rever expectativas irreais, ampliar o diálogo e criar mecanismos de proteção para quem está em sofrimento. Assim, não se trata apenas de evitar afastamentos, mas de criar ambientes em que seja possível trabalhar com dignidade, segurança e sentido.
Em última análise, falar sobre burnout e afastamento por transtornos mentais é, acima de tudo, uma forma de cuidar. Quando reconhecemos que o trabalho pode ser tanto fonte de realização quanto de adoecimento, abrimos espaço para mudanças mais justas. E, ao admitir limites humanos, ampliamos a possibilidade de construir ambientes mais saudáveis e sustentáveis para todas as pessoas.







