PeNSE IBGE: 3 em cada 10 adolescentes relatam tristeza frequente

Aproximadamente 3 em cada 10 estudantes de 13 a 17 anos relatam sentir tristeza sempre ou na maior parte do tempo. Esse dado, apresentado na PeNSE IBGE 2026, revela um sofrimento emocional recorrente, que pode interferir no aprendizado, nas relações e na maneira como o adolescente se percebe no mundo.

Ao mesmo tempo, a pesquisa ajuda a compreender o contexto por trás da tristeza dessa geração. Afinal, outros indicadores aparecem associados, como, por exemplo, irritabilidade elevada, sensação de desamparo, desesperança, bullying, queda na satisfação com o corpo, além do aumento no uso de vapes. Nesse sentido, olhar o conjunto de resultados é essencial para agir com responsabilidade — sem alarmismo ou culpa.

O que é a PeNSE IBGE 

A PeNSE IBGE é a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar. Lançada em março de 2026, essa edição reúne informações coletadas em 2024 sobre saúde, hábitos e contexto social de mais de 12,3 milhões de jovens de 13 a 17 anos, matriculados em escolas públicas e privadas.

Assim, trata-se de um levantamento robusto, pois traz dados em larga escala e comparáveis ao longo dos anos. Com isso, contribui para transformar percepções — como a ideia de que “os jovens estão mais ansiosos” — em evidências concretas.

O que significa sentir “tristeza na maioria das vezes”

Sentir tristeza faz parte da vida. Mas, quando ela aparece com frequência, pode indicar que o adolescente está com poucos recursos emocionais para lidar com estresse, conflitos ou pressões do cotidiano.

Na prática, a tristeza pode se manifestar como:

  • cansaço constante e pouca energia;
  • perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas;
  • irritação e explosões emocionais;
  • isolamento social;
  • dificuldade de concentração e piora no rendimento escolar;
  • sensação de inadequação e baixa autoestima.

Parte desses sinais aparece na lista de sintomas de depressão, da OMS. Ainda assim, cada adolescente expressa o sofrimento de maneira singular. Por isso, mais do que episódios pontuais, é fundamental observar mudanças persistentes ao longo do tempo.

 

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14 sintomas de depressão que não devemos ignorar

 

Quando a tristeza vem acompanhada de irritação

A PeNSE IBGE 2026 apresenta um indicador crucial para a análise da saúde mental dos jovens: 42,9% dos estudantes relatam irritação, nervosismo ou mau humor por qualquer motivo.

Muitas vezes, esses sentimentos são interpretados como rebeldia ou drama. No entanto, eles podem funcionar como uma forma de expressar ansiedade, exaustão ou tristeza.

Quando recorrentes tendem a impactar:

  • a convivência familiar, com aumento de conflitos;
  • as relações escolares, com mais brigas e punições;
  • a autoimagem, já que o jovem passa a se culpar por não conseguir se controlar.

Logo, acolher e compreender as causas costuma ser mais eficaz do que apenas repreender.

Desesperança: quase 1 em cada 5 pensa que a vida não vale a pena

A pesquisa ainda mostra que 18,5% dos estudantes pensam que a vida não vale a pena. Trata-se de um dado sensível que, por um lado, revela sofrimento intenso e, por outro, reforça a importância da rede de apoio, como família, escola e serviços de saúde.

Diante desse quadro, algumas atitudes podem contribuir para o cuidado:

  • escutar sem julgamento;
  • demonstrar presença (“eu estou aqui com você”);
  • buscar apoio profissional.

Já em situações de risco imediato, é fundamental procurar um serviço de urgência. No Brasil, o CVV (188) oferece escuta 24 horas.

 

“Ninguém se preocupa comigo”: o peso do desamparo 

Outro achado relevante:  26,1% dos estudantes relatam sentir que ninguém se preocupa com eles.

Essa percepção pode estar associada a fatores como:

  • famílias sobrecarregadas e com pouco tempo de presença emocional;
  • dificuldades de comunicação (isto é, o adolescente se sente incompreendido)
  • conflitos, bullying, cyberbullying ou exclusão social;
  • ausência de adultos de referência.

A vivência emocional, portanto, é legítima, independentemente de corresponder à realidade objetiva. Nesse contexto, pequenas ações fazem diferença: criar momentos de conversa, estabelecer acordos de convivência, além de acompanhar a vida escolar e garantir a presença de um adulto de confiança.

 

Autolesão: um recorte que exige atenção

De acordo com a PeNSE IBGE, cerca de 100 mil estudantes tiveram alguma lesão autoprovocada nos 12 meses anteriores à pesquisa, o que torna evidente a dimensão do problema. O número corresponde a 4,7% dos estudantes que sofreram acidentes ou lesões.

O resultado chama a atenção por indicar um grupo de jovens com sofrimento mais intenso, refletido nos seguintes indicadores:

  • 73% relatam tristeza constante;
  • 67,6% relatam irritação frequente;
  • 62% não veem sentido na vida;
  • 69,2% já sofreram bullying.

Em conjunto, esses achados apontam para um padrão de vulnerabilidade que combina sofrimento emocional elevado e violência entre pares.

 

Leia sobre o tema:

Autolesão em adolescentes: como lidar?

 

Bullying e aparência: quando o corpo vira alvo

A pesquisa também evidencia a relação entre bullying e imagem corporal. A satisfação com o próprio corpo caiu de 70,2% (2015) para 58% (2024). Em outras palavras, mais adolescentes passaram a se olhar com crítica, desconforto ou vergonha.

Nesse cenário, as provocações ganham força, sobretudo nas redes e em ambientes de alta exposição. Cabe destacar que a insatisfação corporal é especialmente alta entre meninas: 36,1%, quase o dobro em comparação aos meninos (18,2%).

Para enfrentar esse quadro, é possível adotar algumas estratégias, entre elas:

  • Evite comentários sobre peso, forma corporal e corpo ideal;
  • Reforce habilidades, caráter, interesses e conquistas;
  • Ensine leitura crítica de redes: filtro não é realidade;
  • Intervenha em apelidos e humilhações desde o início.

Meninas com indicadores mais preocupantes

Ao analisar a pesquisa, uma conclusão é clara: em 100% dos indicadores, os resultados entre meninas são superiores aos observados entre meninos.

Esse padrão sugere que elas estão mais expostas a pressões relacionadas à aparência, ao uso de redes sociais e às desigualdades de gênero. Por esse motivo, é preciso desenvolver estratégias de prevenção que incorporem essas diferenças, sem reforçar estereótipos.

Confira nosso blog sobre Saúde mental feminina e redes sociais:

Saúde mental feminina e redes sociais

Uso de vapes cresce: pertencimento e risco 

O uso de cigarros eletrônicos foi outro fator avaliado pela PeNSE IBGE. Segundo o levantamento, a prevalência passou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. Esse dado é importante, pois o vape costuma estar associado tanto à tentativa de aliviar ansiedade e estresse quanto à busca por pertencimento. Entretanto, a nicotina e os comportamentos relacionados ao fumo podem comprometer o sono, intensificar a irritabilidade e sustentar um ciclo de dependência.

PeNSE IBGE: tabela-resumo 

Indicador (13–17 anos)Resultado
Tristeza frequente3 em cada 10
Irritados/nervosos/mal-humorados por qualquer motivo42,9%
Pensam que a vida não vale a pena18,5%
Sentem constantemente que ninguém se preocupa26,1%
Suporte psicológico na rede privada58,2%
Suporte psicológico na rede pública45,8%
Profissional de saúde mental no quadro34,1%
Estimativa de lesão autoprovocada (12 meses)~100 mil
Insatisfação corporal: meninas x meninos36,1% x 18,2%
Experimentação de vapes29,6%

Fonte: PeNSE/IBGE 

 

Onde o adolescente encontra ajuda?

A partir dessa realidade, a discussão avança para uma questão prática: onde o adolescente pode encontrar apoio? A escola, nesse ponto, assume um papel central — e é justamente aí que está o problema. Apenas 34,1% dos estudantes têm acesso a um psicólogo que integra a equipe escolar.

Além disso, ao analisar o número de escolas que oferecem algum tipo de suporte psicológico aos estudantes, observa-se que 58,2% da rede privada contam com esse apoio, enquanto, na rede pública, o percentual cai para 45,8%. E aqui, quando falamos em suporte psicológico, ele pode ser pontual, terceirizado, limitado ou ainda insuficiente para a demanda da escola.

O quadro acima retrata um desafio estrutural. Ou seja, muitas escolas desejam acolher, mas não dispõem de equipe suficiente para atender com regularidade, acompanhar casos com continuidade, orientar professores e famílias, além de articular encaminhamentos para a rede de saúde.

Por isso, iniciativas estruturadas tornam-se cada vez mais relevantes. Nesse sentido, o Ame Sua Mente na Escola atua para fortalecer a cultura de saúde mental no ambiente escolar. Por meio da formação de educadores e gestores, o projeto se organiza em quatro frentes: promoção da saúde mental, prevenção, identificação precoce de transtornos e, quando necessário, encaminhamento responsável. Desse modo, a escola deixa de agir só na crise e passa a construir uma cultura contínua de cuidado.

 

Conheça mais informações sobre o projeto:

Por que educadores preparados em saúde mental enfrentam melhor os desafios na escola

Como transformar dados do PeNSE IBGE em ação

Com um diagnóstico mais preciso, o desafio passa a ser transformar esses dados em ações. Nesse caminho, algumas estratégias simples podem apoiar essa transição:

Família e cuidadores: presença emocional
No ambiente familiar, a presença emocional é um importante fator de proteção. Assim, pequenos rituais de conversa ajudam a abrir espaço para o diálogo, enquanto validar as emoções antes de oferecer conselhos tende a ser mais efetivo. Da mesma forma, perguntar sobre escola e amizades, sem tom de interrogatório, favorece a construção de confiança.

Gestores escolares e educadores: pertencimento reduz risco
Já no contexto escolar, alguns protocolos são fundamentais. Em primeiro lugar, é essencial treinar a equipe para reconhecer sinais de sofrimento e acolher o estudante sem exposição. Em seguida, estabelecer um fluxo claro de ação — com escuta, registro, contato com a família e encaminhamento — traz mais segurança às decisões. Ao mesmo tempo, projetos contínuos de convivência e a promoção de uma cultura anti-bullying fortalecem o ambiente escolar. Além disso, a articulação com a família e com a rede de saúde do território, incluindo o mapeamento de serviços como UBS e CAPS, amplia o suporte disponível.

Sociedade: linguagem e atitude como fatores de proteção
Há, ainda, atitudes que dizem respeito a todos nós, especialmente na forma como falamos sobre sofrimento. Substituir frases que minimizam a dor, como “isso é drama”, por expressões de escuta e apoio contribui para um ambiente mais acolhedor. Da mesma forma, reparar em quem está isolado e intervir em situações de humilhação, mesmo quando parecem “brincadeiras”, ajuda a reduzir riscos e promover segurança.

Em síntese, os dados da PeNSE IBGE apontam para a necessidade de ampliar a escuta, qualificar o cuidado e fortalecer respostas estruturadas. Diante de sinais de sofrimento, a orientação é clara: escuta ativa, proximidade e não minimização.

 

 

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